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terça-feira, 1 de agosto de 2023

Dando vida às partes mortas de nós mesmos

(originalmente publicado em https://indd.adobe.com/embed/c46e5aff-75fa-470d-bb34-6aea8363aa38)

Nos últimos anos, nas cerimônias de Izcór que eu conduzi, eu tenho lido um artigo lindo da Eliane Brum[1] em que ela diz que o nosso mundo morre antes da gente e que, nesse processo, parte de quem somos vai embora também. A verdade é que morremos em parte com cada pessoa querida que nos deixa, perdemos memórias e sonhos.

Para alguns de nós, perdemos aqueles que mais nos conheciam intimamente, com quem compartilhamos os melhores e os mais difíceis momentos de nossas vidas e cujo olhar carinhoso era suficiente para nos sentirmos bem em qualquer situação. Em outros casos, perdemos aqueles que conheciam nossas histórias e as validavam, que compartilhavam experiências comuns, lugares, brincadeiras e códigos de comunicação que ninguém mais entendia. Assim, com sua partida, se foi também parte do nosso passado.

Mas há também as situações em que sentimos que perdemos o potencial do futuro quando pessoas centrais em nossas vidas falecem. Não raras vezes fomos obrigados a abrir mão do sonho de que nossos filhos e netos pudessem conviver por muito tempo com pessoas que foram de profundo impacto nas nossas vidas. Tivemos que lidar com a realidade de que não envelheceríamos ao lado de quem sonhamos ou de que passos importantes das nossas vidas teríamos que dar sozinhos, sem termos aqueles que perdemos ao nosso lado para nos incentivar e fortalecer.

Na segunda benção da Amidá, agradecemos a Deus por “dar vida aos mortos”, uma frase que tem intrigado rabinos há gerações e gerado várias direções de interpretação e formulações alternativas. Há quem a tenha substituído por uma fórmula que  agradece a Deus “por dar vida a tudo que tem vida” e quem literalmente acredite em um momento apocalíptico em que os mortos ressuscitarão e entre essas posições, há muitas abordagens metafóricas que tentam explicar de que forma podemos entender a expressão “dar vida aos mortos”.

No serviço de Izcór, ao relembrar de pessoas queridas que faleceram, tentamos mantê-los conectados à corrente da vida, através de nossas memórias e das condutas e valores que aprendemos deles. Buscamos também ressuscitar as partes de nós mesmos que morreram com eles, honrando o papel que as pessoas de quem nos lembramos hoje tiveram em nos tornar quem somos e a chegar onde chegamos. Assim, retomamos nossa relação com nosso próprio passado, suas histórias, lugares, cheiros, sons e experiências, ao mesmo tempo em que conseguimos voltar a sonhar com novas experiências que criaremos daqui para frente. É assim que melhor honramos a memória daqueles que partiram.

Shaná Tová uMetucá!

Que seja um ano doce e cheio de novas memórias!


[1] https://bit.ly/3sl4M1Q


segunda-feira, 31 de julho de 2023

Tu b'Av (2023) - Fascículo da UJR


O rabino Nehemia Polen, com quem eu tive a honra de estudar, nos ensinava que os sacrifícios oferecidos no Templo podiam ser comparados às flores ou outros presentes que casais dão um ao outro com frequência: há flores para pedir desculpas por alguma mancada, há flores para uma ocasião especial e há flores para dizer simplesmente “pensei em você durante o dia e quis te fazer um agrado.” Em nossas vidas amorosas, temos momentos especiais que queremos eternizar e relembrar com frequência, há momentos em que falhamos e para os quais buscamos caminhos de correção – mas para a maioria dos casais, na maior parte do tempo estamos envolvidos no esforço de manter o fogo aceso, o companheirismo ativo, o olhar e a escuta atentos para enxergar e ouvir o outro e apoiá-lo onde estiver. 


Assim como nas nossas relações românticas, também a relação do povo judeu teve momentos de êxtase, como a entrega da Torá no Monte Sinait e momentos de profunda crise, como a adoração do Bezerro de Ouro ou a falta de fé do povo que seguiu a opinião pessimista da maioria dos escoteiros enviados para investigar a Terra de Israel. Para relembrarmos estes eventos mais dramáticos, temos celebrações (como Shavuot) e datas de tom mais soturno (como 17 de Tamuz e Tishá b’Av), dependendo da natureza do evento que buscamos reviver. Na maior parte dos dias, no entanto, buscamos manter acesa a chama do nosso relacionamento com o Divino, qualquer que seja a forma que cada um de nós a sente e define. Parte da forma como a liturgia faz isso, é falando de amor, pelo menos quatro vezes ao dia: de manhã, rezamos Ahavá Rabá (“Amor imenso”) e à noite, Ahavat Olam (“Amor eterno”), antes do Sh’má Israel. Ambos falam do amor que Deus nutre por nós. Imediatamente após o Sh’má, dizemos o veAhavtá, na qual discorremos sobre o amor que nós sentimos por Deus. Amor profundo, mútuo e reafirmado constantemente.

 

No entanto, quem já esteve em uma briga mais séria sabe que nessas situações, a mágoa se estabelece e, por algum tempo, é necessária paciência para esperar ela passar. De acordo com um midrash, após o episódio no qual dez dos doze escoteiros enviados para investigar a terra de Israel voltaram com narrativas pessimistas e convenceram o povo de que não conseguiriam conquistar a terra prometida[1], Deus teria ficado tão magoado com o episódio que teria parado de falar com Moshé e que esta interrupção na comunicação se manteria até que toda aquela geração tivesse falecido[2]. Foi em um dia 15 de Av (Tu b’Av) que o diálogo entre Deus e Moshé se restabeleceu, indicando a todos que as mortes haviam terminado e que todos aqueles que continuavam vivos poderiam entrar na terra de Israel. Desde então a data de Tu b’Av teria sido estabelecida como uma data feliz no calendário, aquela em que nos relembramos do momento em que conseguimos superar uma das maiores crises no relacionamento do povo judeu com Deus.

 

Desde então, Tu b’Av se tornou a data do calendário judaico que fala do amor. Para ser sincero, apesar de a Mishná afirmar que este dia é, junto com Iom Kipur, um dos dois mais felizes do calendário judaico[3], é uma daquelas datas comemorativas para as quais nem sempre damos atenção, para as quais encontramos poucas referências e não sabemos bem como comemorar.

 

Vivemos em tempos em que a fluidez conceitual passou a definir nosso modo de vida e no qual as palavras ganharam tantas interpretações distintas, que muitas vezes é difícil saber se estamos todos falando das mesmas coisas. Neste contexto, “amor” é paradoxalmente um termo que todos temos certeza que entendemos o que ele significa e que não sabemos se a nossa compreensão é a mesma da das outras pessoas. Tu b’Av é uma excelente oportunidade de festejarmos o amor e também falarmos sobre ele, expandirmos nossos conceitos e entendermos o ponto de vista de quem pensa diferente. 

 

Estamos também na reta final para Rosh haShaná e Iom Kipur, a duas semanas do início de Elul, o último mês do calendário judaico, tradicionalmente dedicado ao processo de cheshbon nefesh, a “contabilidade da alma” na qual avaliamos nossa conduta no ano que chega ao fim. Tu b’Av é uma oportunidade de começarmos cedo neste processo, nos perguntando quais são os relacionamentos com os quais realmente nos importamos e nos quais passamos por uma crise, para buscarmos o reencontro que o primeiro Tu b’Av significou.

 

Que este Tu b’Av seja uma oportunidade de transformação, de encontros e reencontros, de descobertas e de ampliação do que já era conhecido!

 

Chag haAhavá Sameach! Feliz festa do amor!

 



[1] . Num. 13-14

[2] . Talmud Bavli Taanit 30a

[3] . Mishná Taanit 4:8

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Mais do que lembrar, queremos reviver

(originalmente publicado em https://cip.org.br/lm-rogerio-cukierman/)

Izcor”, o nome da cerimônia através da qual relembramos quatro vezes ao ano – incluindo Iom Kipur – nossos entes queridos que já faleceram, significa em hebraico “lembre-se”. É o começo de uma frase na qual pedimos a Deus que recorde e que mantenha as pessoas que amamos conectadas à corrente da vida.


Muitas vezes, no entanto, nos recordamos delas e sentimos suas vidas entrelaçadas com as nossas todos os dias, quando estamos em  dor e precisamos de consolo, quando celebramos uma conquista ou outro fato feliz de nossas vidas, quando nos olhamos no espelho e enxergamos seus traços nos nossos, quando nos ouvimos dizendo frases que eles nos ensinaram ou vivendo de acordo com valores que herdamos deles.

 

Já à primeira vista, fica claro que a memória é uma característica central da tradição judaica: a transmissão da tradição de geração em geração, le’dor va’dor, especialmente festas judaicas relacionadas a um tempo passado. Quando nos detemos a observar com mais cuidado, no entanto, percebemos que, mais do que relembrar, o que a tradição judaica busca é reviver tempos passados, nos ordenando que saiamos pessoalmente de Mitsrayim a cada Pessach e que recebamos a Torá pessoalmente a cada Shavuot, e assim por diante.

 

Da mesma forma, mais do que relembrar pessoas tão queridas que partiram em anos passados, o exercício de mantê-los conectados à corrente da vida através da memória nos permite vivenciar o tempo, em particular nossos períodos mais sagrados, como se eles ainda estivessem aqui conosco, perceber o impacto que eles continuam tendo em nossas vidas, celebrar suas vidas mesmo quando lamentamos que eles tenham partido.

 

Que nossos esforços sejam frutíferos e que consigamos sentir sua presença, sua influência e seu impacto a cada dia do novo ano.

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Tu b'Av (2022) - fascículo da UJR

(originalmente publicado em https://ujr-amlat.org/wp-content/uploads/2022/08/TuBeAv2022_PORT.pdf)

Em filmes de caça ao tesouro, as maiores riquezas são aquelas escondidas nos lugares mais inacessíveis. Há algo parecido em tradições religiosas: aquilo que nos é de fácil acesso acaba sendo usado de forma tão intensa e repetida que pode se banalizar. Muitas vezes, tradições menos conhecidas ganham maior significado quando finalmente as descobrimos. 


Tu beAv é uma das datas judaicas de menor destaque. Para preparar este texto, eu consultei alguns dos meus livros favoritos sobre o calendário judaico e praticamente nenhum deles mencionava a data. A busca por suas diversas camadas de significado prometem, no entanto, recompensas especiais para quem conseguir chegar ao final da jornada.

 

Tu beAv, o décimo-quinto dia do mês de Av, acontece em meio a uma reviravolta do calendário. Ela segue um período de três semanas de intenso pesar, que culminam em Tishá beAv, o ponto focal das tragédias ocorridas na história judaica. Por isso, uma mishná estabelece que “quando começa o mês de Av, diminuímos nossa alegria”[1]. No entanto, uma outra mishná afirma que “para o povo de Israel, não haviam dias que fossem mais felizes do que Iom Kipur e Tu beAv”[2]. A mudança repentina de estado de humor do dia mais triste do ano para um dos mais felizes em apenas cinco dias torna esta transição ainda mais intensa.

 

O que tornava Tu beAv um dia tão feliz? Os arqueólogos dizem que se tratava de um festival pagão que comemorava a fertilidade e a fermentação, mas a primeira pista sobre a sua origem judaica vem da própria Mishná que a coloca como uma referência em felicidade no calendário, que afirma que neste dia as jovens de Jerusalém saíam com roupas brancas emprestadas para não envergonhar quem não tinha. Elas saíam e dançavam nas vinhas, convidando os homens a escolherem suas parceiras, sem se basearem nas aparências. A imagem de danças em roupas brancas em meio ao campo já traduz uma certa perspectiva de romantismo e ajuda a explicar porque Tu beAv passou a ser vista como a celebração judaica do amor.

 

Ainda assim, este texto da MIshná não explica o motivo de que esta celebração acontecesse em 15 de Av e os sábios do Talmud buscaram explorar a questão mais a fundo. Os sábios trazem diversas explicações, algumas delas relacionadas à suspensão de proibições de casamentos entre membros de diferentes tribos; outras explicações relacionam a data a eventos da história judaica, como o fim das mortes da geração que havia deixado o Egito, o fim da proibição de ir a Jerusalém nos tempos do rei Hoshea ou quando puderam enterrar as vítimas da batalha de Betar.Outra explicação é que a partir de 15 de Av, o Sol se tornaria mais fraco na terra de Israel, tornando mais difícil a secagem da lenha que era usada como oferta no Templo; por isso, eles paravam de cortar árvores nesta data[3].

 

Como em toda boa história de mistério, um detalhe aparentemente insignificante nos leva a revelações fundamentais para sua solução: a oferta de madeira que era trazida ao Templo. Uma mishná estabelece datas específicas para grupos de destaque trazerem madeira[4]. A data de 15 de Av era reservada a quem, por erro, não tinha comparecido na data correta e aos segmentos sociais de menor destaque. De acordo com Flavius Josefus, um historiador judeu-romano do primeiro século, em certa ocasião os participantes das cerimônias de oferta de madeira em 15 de Av eram tão numerosos que eles sobrepujaram os soldados romanos e os expulsaram da cidade. A multidão, então, queimou os arquivos, destruindo os registros das dívidas e libertando devedores de seus credores[5]. Este aspecto da data não teria recebido destaque na literatura rabínica por medo de que as autoridades romanas se ofendessem e proibissem sua comemoração.

 

Tu beAv se insere, assim, no universo das datas judaicas centrais: assim como Chanucá, teve sua dimensão de autodeterminação sublimado por receio de como as autoridades reagiriam; como as Pessach, Shavuot e Sucot, tem dimensões agrícolas relacionadas à estação do ano e seu impacto sobre a natureza; como Rosh haShaná e Iom Kipur, nos convida a ir além das aparências e encontrarmos as pessoas em suas verdades mais profundas. Como várias outras datas do calendário, sua origem pode estar associada a comemorações de outras culturas, que foram ressignificadas e se tornaram plenamente judaicas.

 

Tu beAv também traz algo unicamente seu. Era no 15 de Av que as jovens de Jerusalém trocavam de vestido para que seus pretendentes não pudessem identificar quem eram as moças ricas e quem eram as pobres; o 15 de Av era a data em que os segmentos de menor destaque social vinham trazer suas ofertas de madeira ao Templo e também foi no 15 de Av que uma revolta popular deu fim a uma situação de opressão financeira vivida pelo campesinato da época. Nestas três situações, há uma ênfase em equidade e em proteger os grupos sociais mais vulneráveis.  Quando pensamos sobre a ligação com relacionamentos românticos que Tu beAv passou a ter, é fundamental integrarmos os dois conceitos, identificando quais grupos hoje tem suas vidas amorosas colocadas em risco, desenvolvendo ações concretas para protegê-los e garantindo que possam continuar amando quem amam. 

 

No judaísmo, amor é ação[6] – Tu beAv pode ser a data para colocar isso em prática.

 

 

 

 

 

 



[1] . Mishná Taanit 4:6

[2] . Mishná Taanit 4:8

[3] . Talmud Bavli Taanit 30b

[4] . Mishná Taanit 4:5

[5] . https://blogs.timesofisrael.com/xylophoria/

[6] . http://ujr-amlat.org/art/pt/tu-beav-5781-o-amor-e-acao/

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

A Dor de Cada Um e a Dor da Comunidade

(originalmente publicado em https://cip.org.br/livrodememorias2021-2/)

Nas últimas semanas, descobri uma nova melodia para o Salmo 147, que passamos a cantar no Shacharit de Shabat [1]. Suas palavras, que estão nos versículos 3 e 4 do Salmo, afirmam sobre Deus: “Cura as pessoas com o coração partido e trata das suas tristezas; determina o número das estrelas e dá nome a cada uma delas.”

Toda vez que cantamos esta melodia, eu fico maravilhado com a doçura de suas palavras, do carinho implícito na visão do Divino que acolhe especialmente as pessoas sofrendo e enxerga tanto o grande esquema do universo (quando conta as estrelas) quanto reconhece a individualidade de cada um (quando lhes dá nomes). 

Neste ano, em que perdemos tantas pessoas queridas e no qual nosso país sofreu tanto, tivemos o desafio de aprender com a conduta Divina: ao endereçarmos a macro-perspectiva, reconhecemos a dor coletiva e a responsabilidade de fazermos parte de uma comunidade e de uma sociedade que estão, de forma coletiva, em luto; ao mesmo tempo em que, cada um na sua realidade individual, sofre pela perda de pessoas próximas, cujo vazio nos fala especialmente alto. O desafio é estarmos simultaneamente presentes para o  nosso próprio sofrimento e o da nossa casa, da nossa rua, da cidade e de todo o mundo.

No Izcór, realizamos um movimento similar: ao fazermos esta reza em comunidade, afirmamos nosso pertencimento e expressamos empatia para com as pessoas com quem rezamos (mesmo que, neste ano, não possamos vê-las); criamos memórias coletivas e homenageamos pessoas com quem, muitas vezes, não convivemos. Além de um momento comunitário, o Izcór é também uma parte profundamente pessoal do serviço religioso, no qual revisitamos a dor pelas pessoas que perdemos no último ano ou antes disso, honramos sua memória e expressamos a saudade que sentimos.

Nosso apoio mútuo e a forma como conduzimos nossas vidas são as melhores formas de honrarmos as memórias pessoais e coletivas que trazemos à tona no Izcór. O legado vivo das pessoas que mais amamos se dá através dos valores que elas puderam nos transmitir e pelos quais elas continuam entrelaçadas à corrente da vida.


[1] A melodia que temos cantado, de autoria do rabino Shiar Yaakov, pode ser encontrada aqui: https://www.youtube.com/watch?v=AyyUR2K29BM

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Shavuot - Fascículo da UJR

(originalmente publicado em https://ujr-amlat.org/wp-content/uploads/2023/12/Shavuot_2021_port.pdf) 

Em suas fontes bíblicas, a festa de Shavuot é caracterizada pelo momento do ano em que acontece (50 dias após Pessach, quando estava acontecendo a ceifa do trigo) e pelas ofertas que eram oferecidas a Deus, fossem elas os sacrifícios animais, os pães ou as primeiras frutas. Exceto pelo momento da festa, as demais dimensões bíblicas referiam-se todas a práticas agrícolas na Terra de Israel. Seguindo-se à Dispersão judaica, com várias comunidades fora de Israel, estes aspectos da festa perderam a relevância para boa parte do mundo judaico. 


Ainda que não exista qualquer passagem que liguem a festa de Shavuot à entrega da Torá, temos elementos que justificam esta associação. Como em um trabalho de detetive, há duas grandes evidências apontando para a entrega da Torá em Shavuot. Em primeiro lugar, há a questão do tempo: Shavuot é descrita como sendo comemorada 50 dias após Pessach e, mesmo que não esteja explícito que estes 50 dias se refiram ao Pessach Mitsrayim, a efetiva saída dos hebreus da terra de Mitsrayim, a associação temporal entre os eventos que deram origem às duas festas parece bastante razoável. De acordo com este raciocínio, sete semanas após a libertação da servidão, algo muito significativo teria acontecido aos hebreus, justificando uma data central do calendário hebraico. A segunda evidência é que em Shavuot, mais do que nas outras quatro festas descritas na Torá[1], o povo hebreu foi instruído a oferecer o que tinha de melhor em sua procissão a Jerusalém. O que poderíamos ter recebido em Shavuot que justificasse tamanha generosidade, mesmo séculos depois?

 

Na imaginação rabínica, a resposta era óbvia: tinha sido em Shavuot que o povo tinha recebido a Torá! No meio do deserto, em meio à amplidão quase sem limites que aquele ambiente oferecia, Deus tinha Se revelado mais uma vez ao povo hebreu com trovões, raios, e um pacto que nos definiria dali pra frente, representado pela Torá que recebíamos ali.

 

A palavra “Torá” é suficientemente vaga para que a tradição rabínica pudesse divagar sobre o que, de fato, foi revelado no Monte Sinai. Em sua visão minimalista, Shavuot comemora a entrega das Tábuas da Lei com as “Dez Afirmações”[2]; em sua versão máxima, Deus teria revelado a Moshé toda a tradição judaica, incluindo os 24 livros do  Tanach, a Torá Oral e até mesmo uma inovação dita por um aluno experiente a seu professor hoje em dia![3]

 

O mais revolucionário no conceito rabínico sobre a entrega da Torá, no entanto, é a forma plural como este momento fundamental da identidade judaica foi entendido e descrito nos midrashim. De acordo com inúmeras passagens da literatura rabínica, as pessoas tiveram experiências múltiplas no Monte Sinai e saíram daquele evento fundador com compreensões distintas do que havia sido revelado. Lechá Dodi, por exemplo, uma das músicas mais tradicionais do Cabalat Shabat, afirma em sua primeira estrofe: שמור וזכור בדיבור אחד, “Shamor veZachor b’Dibur echad”, “‘Guarde’ e ‘Lembre’ em uma mesma Afirmação”, em referência às duas versões da instrução para guardarmos o Shabat, conforme relatadas em Ex. 20:8 e em Deut. 5:12. De fato, o texto bíblico apresenta algumas divergências entre as duas versões das Dez Afirmações -- que foram entendidas como evidências de que a Torá havia sido Revelada em múltiplas vozes e que cada alma presente àquele momento havia capturado combinações distintas destas vozes que se revelavam. 

 

A diversidade que percebemos hoje na tradição judaica não é, portanto, acidente de percurso, mas resultado premeditado da forma como Deus estabeleceu Seu pacto conosco, dando espaço para que cada um se relacione com seu Judaísmo de acordo com sua capacidade, aptidão, personalidade e interesses. Daí vem nossa força! Longe de ser uma solução única, o Judaísmo, desde a Revelação no Monte Sinai, se assemelha a uma orquestra, em que cada instrumento contribui de forma distinta para a grandeza do resultado final. Imaginem que monótono seria uma orquestra de apenas um instrumento tocando todos a mesma versão da música!

 

Vivemos hoje um momento especial da história judaica, no qual a diversidade de perspectivas tem sido revalorizada, em que segmentos cujas vozes foram tradicionalmente abafadas conquistaram seu lugar à mesa, e no qual há novo ânimo para resgatar a criatividade que caracterizou nossa relação com a tradição por tantos séculos.

 

Perguntaram ao Kotzker Rebe porque Shavuot era chamada a festa da “entrega da Torá” e não a festa do ”recebimento da Torá”. Sua resposta foi de que a Torá havia sido entregue em um tempo e lugar, mas era recebida a todo momento em todos os lugares.[4] De receitas de torta de queijo a novas leituras dos textos clássicos, o povo judeu só tem a ganhar quando mais alunos sábios trazem suas inovações a seus professores e, assim, revivemos o momento da Revelação no Monte Sinai, o momento que Shavuot festeja!

 

Chag Matan Torá Sameach! Feliz Festa da Entrega da Torá!  



[1] Pessach, Sucot, Iom Kipur e Iom Truá, que passou a ser chamada de Rosh haShaná.

[2] Apesar de serem comumente chamadas em português de “Os Dez Mandamentos”, a expressão rabínica em hebraico, עשרת הדיברות, “asséret hadibrót”, é melhor traduzida como “As Dez Afirmações”. A expressão bíblica, que aparece em Ex. 34:28, Deut. 4:12, Deut. 10:4, é עשרת הדברים, “asséret hadvarim”, deve ser traduzida como “As Dez Coisas” ou como “As Dez Palavras”. De fato, de acordo com a numeração judaica, a primeira das dez afirmações não contém nenhuma instrução, tratando da apresentação da autoridade Divina. 

[3] Vaicrá Rabá 22:1

[4] Buber, M. (1991). Tales of the Hasidim: Book 2: The Later MastersNew York: Schocken Books. p. 278

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Quando cada vida vale por todo o mundo

(originalmente publicado em https://cip.org.br/wp-content/uploads/2020/09/Livro-Memorias_Grandes-Festas-5781_OK.pdf)

 

Eu dedico esse comentário à memória de Silvia Belk Keila, 

uma prima querida que faleceu em Sh’mini Atséret de 5780.

 

Nos últimos meses, nos acostumamos a ver nas manchetes dos jornais números diários de mortos pela Covid-19. Ainda me lembro quando o Brasil atingiu vinte mil mortos em maio: as mensagens nas redes sociais e os artigos na imprensa destacaram essa triste marca e lembraram quem eram algumas das pessoas que haviam falecido, impedindo que a frieza dos números nos cegasse para a dimensão humana desta tragédia. No entanto, com o passar das semanas e dos relatos diários, fomos nos acostumando com o ritmo de mortes e paramos de pensar nas vidas que se perderam. No ritmo atual, mais de vinte mil pessoas morrem de Covid-19 por mês no Brasil, mas as postagens e os artigos se tornaram muito mais raros e, assim, sabemos bem menos sobre quem eram essas pessoas.

 

Nestes meses de isolamento, em que passamos mais tempo em casa, sentimos também mais falta do contato humano com nossos pais e avós, com nossos professores, mentores e colegas, com amigos próximos e com nossos filhos. Em alguns casos, a tecnologia tem nos ajudado a diminuir a distância e mantermo-nos em contato; mas não há tecnologia que nos ajude a diminuir a falta que sentimos daqueles que já faleceram. Nestes casos, ao contrário da situação em que o número nos dessensibiliza, nós sabemos que cada pessoa é insubstituível, que cada vida perdida é realmente como se tivéssemos perdido todo o mundo. Em muitos casos, a falta que sentimos deles nesses meses de isolamento tem sido ainda maior do que em anos anteriores.

 

No Izcór, relembramos de seus exemplos e da forma como nos impactaram. Buscamos resgatar seus valores e exercer nas nossas vidas o que deles aprendemos. A se entregar com generosidade como eles faziam, a amar a vida como eles amaram, a transformar o mundo e as outras pessoas como eles fizeram. Ao pedirmos a Deus que se lembre deles, relembramos à fagulha Divina em cada um de nós que os mantenha para sempre conectados à corrente das nossas vidas.

 

Gmar Tov!

 

 

 

quinta-feira, 19 de março de 2020

De Purim a Pessach: Proteção e Vingança em Diálogo no Calendário Judaico (ou os riscos do 'perseguido' se transformar em 'perseguidor')


Todo ano, no começo de fevereiro, o mesmo cenário: em esquinas-chave de São Paulo, encontramos grupos de jovens, suas caras pintadas com os nomes das faculdades em que foram aprovados, pedindo dinheiro aos motoristas para poderem ir beber cerveja com os novos colegas. Acompanhando a alguma distância, estão os recém-veteranos, alunos do segundo ano, comemorando o fato de já não serem mais eles quem precisa passar pelo vexame. Pedir dinheiro nas esquinas é, provavelmente, a prática mais visível e inocente do trote pelo qual passam os calouros que, em alguns casos, envolvem episódios sérios de violência física e moral. A cada tantos anos, voltam à imprensa casos menos visíveis e menos inocentes, que nunca deixam de causar polêmica.

Penso muito na transição de calouro para veterano e sobre como, nela, o oprimido de um ano passa facilmente para a condição de opressor, no ano seguinte; o pensamento corrente parece ser: “se alguém sofreu o trote no seu ano, por que abriria mão de dar o trote no ano seguinte? ” Todas as práticas que incomodavam e humilhavam, gerando alguma revolta, passam a ser justificadas, usando os mesmos argumentos que, no ano anterior, eram prontamente rebatidos. 

Escrevo este artigo próximo de Purim, a festa judaica que comemora a salvação dos judeus da Pérsia. Segundo a história do Livro de Ester, o pérfido primeiro-ministro Haman tinha planejado um genocídio contra os judeus, que só foram salvos porque Ester, a rainha que tinha sido escolhida em um concurso de beleza, era secretamente judia e intercedeu junto ao rei para evitar a tragédia. Há um lado da história desta festa, no entanto, também descrito no Livro de Ester, para o qual se dá, tradicionalmente muito menos atenção: no final da história, com um judeu tendo substituído Haman na posição de primeiro-ministro e com a autorização do rei de que utilizassem armas para se defender, os judeus da Pérsia cometeram um massacre e mataram mais de 75.000 pessoas. 

Oprimidos sob risco de genocídio, esses judeus conseguiram chegaram próximos do poder e, em sua sede de vingança, se tornaram aquilo que eles mesmos mais rejeitavam. No shabat que antecede Purim, chamado Shabat Zachor, uma leitura especial da Torá nos instrui a não nos esquecermos de apagar a memória de Amalek que, na tradição judaica, é associado à violência contra aqueles em situação de vulnerabilidade e tem, entre seus descendentes, Haman, o vilão da história de Purim. Uma leitura possível deste mandamento é que devemos erradicar fisicamente Amalek e seus descendentes; outra possibilidade é que a Torá está nos alertando para que não nos transformemos nós mesmos em Amalek, nos orientando para olharmos a história de Purim e vermos como os judeus se transformaram em Haman. 

Infelizmente, não é só no trote universitário ou na história de Purim que encontramos a transformação de oprimido em opressor. Não são raras as vezes em que escutamos histórias de como “meus avós não tinham nada e foram capazes de se estabelecer e prosperar. Quem não consegue progredir é por preguiça e falta de esforço. ” Em vez de gerar solidariedade e empatia, a experiência de ter vivido sob condições extremamente difíceis e conseguido escapar delas pode dar origem a um sentimento de superioridade que impede a conexão com quem vive às margens da sociedade, hoje.

A perspectiva oposta a esta tem centralidade na tradição judaica, por exemplo, em Pessach, a festa que celebramos depois de Purim e na qual nos lembramos da libertação dos hebreus do Egito, onde tinham sido mantidos como escravos. Nossa experiência vivendo sob opressão no Egito determina que devemos ser especialmente cuidadosos para proteger quem vive em condições similares hoje em dia. Segundo o Talmud, a obrigação de “proteger o estrangeiro porque fomos estrangeiros na terra do Egito” aparece pelos menos 36 vezes no texto da Torá. De acordo com muitos autores “guer” (a palavra bíblica para “estrangeiro”) é uma metáfora para a condição de opressão sob a qual os estrangeiros viviam. Portanto, a obrigação deve ser entendida como nos instruindo a “proteger o oprimido porque fomos oprimidos na terra do Egito”.

A centralidade de obrigação judaica para com os menos favorecidos na nossa sociedade é inquestionável, tanto pelo número de vezes em que é repetida no texto da Torá como pelo diálogo que estabelece com muitos outros textos judaicos, que caracterizam e implementam esta preocupação. Trata-se de mandamentos sobre a forma como devemos pagar salários em dia ou deixar áreas dos nossos campos para que quem precisa possa entrar e se alimentar, entre muitos outros. Pode-se argumentar que foi ao redor da ideia de proteger o vulnerável que toda a tradição judaica foi construída: nossa experiência como escravos determinou de tal forma a identidade judaica que a preocupação com justiça social passou a fazer parte de forma indissociável do judaísmo. Ao mesmo tempo, no entanto, precisamos reconhecer que uma leitura vitimizacionista e revanchista para Purim também faz parte da tradição judaica — ignorá-la seria um erro conceitual e, ainda pior, um erro estratégico para a promoção de um judaísmo que acredita na defesa permanente dos direitos humanos como um dos seus eixos fundamentais.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Pêssach - Fascículo da UJR

(texto originalmente publicado em https://ujr-amlat.org/wp-content/uploads/2020/10/pessach_2020_port01.pdf)

A origem da comemoração de Pessach

Com a lua cheia, em 15 de Adar, o primeiro mês do ano na contagem bíblica, os hebreus, que haviam permanecido em Mitsrayim por mais de quatro séculos, foram libertados. A noite anterior tinha sido passada em apreensão: um cordeiro deveria ser sacrificado, seu sangue usado nos batentes das portas para indicar as casas dos hebreus que seriam poupadas da última praga, a morte dos primogênitos; a carne do cordeiro assada e consumida por cada família com matsá e ervas amargas; o cinto apertado, sandálias nos pés, cajado na mão, prontos para partirem; tudo devia ser consumido de forma apressada,. É assim que a Torá relata o primeiro Pessach[1], que na tradição passou a ser chamado de Pessach Mitsrayim, a noite em que os hebreus foram libertados. 

Os versos seguintes a este relato apresentam também a forma como Pessach deveria ser comemorado dali para frente (o que na tradição passou a ser chamado Pessach haDorot): com matsot e sem o consumo de chamêts por sete dias[2]. Quando o povo entrasse na Terra de Israel e a experiência da servidão fosse apenas uma memória, seus filhos lhes perguntariam o motivo deste ritual - e os hebreus deveriam explicar a seus filhos que era para lembrar-se da forma como Deus os havia redimido da opressão em Mitsrayim. Esta idéia, de que os pais devem explicar a seus filhos sobre a saída de Mitsrayim, é repetida quatro vezes na Torá[3],  deu origem ao Seder de Pessach (uma forma estruturada de explicar o motivo da festa) e a algumas das tradições relacionadas ao número quatro (como as quatro crianças da hagadá, por exemplo).

 

A comemoração de Pessach nos nossos dias

De acordo com a tradição, não apenas nos lembramos da saída de Mitsarayim em Pessach, mas revivemos aquele momento: em cada geração, toda pessoa é obrigada a ver a si mesma como se ela tivesse sido pessoalmente libertada[4]. O Seder de Pessach é nossa forma de reviver e explicar, de ir da opressão à redenção, de ligar nossa libertação no passado com os desafios que enfrentamos no presente e de expressar nossa esperança de que alcancemos sua solução também em nossas vidas: ba shaná ha-baá biYerushalayim.

O rabino e filósofo israelense, Donniel Hartman, presidente do Instituto Hartman, renomado Instituto de Estudos Judaicos em Jerusalém, defende que há mais de uma história sobre o Êxodo que pode ser contada em Pessach[5]. Uma versão da história relata um episódio de redenção do povo judeu devido à nossa relação com Deus, que não pôde ficar passivo quando Seus filhos estavam sendo oprimidos. É uma perspectiva em que a experiência do Êxodo é particular e tem pouco a ensinar sobre outros episódios de opressão nos quais o povo judeu não esteja envolvido. Uma outra versão da história trata de um processo de Libertação conduzido porque Deus odeia a opressão, independentemente das partes envolvidas. O Rabino Hartman lembra que estas duas perspectivas foram contempladas no texto da hagadá, mas que nem sempre recebem o mesmo destaque na forma como contamos a história – e nos desafia a considerar qual mensagem de Pessach queremos privilegiar em nossos sedarim

A tensão entre o foco na servidão e subsequente libertação dos hebreus ou nas opressões contemporâneas tem definido, em grande parte, a forma como o ritual se desenvolveu no último século. Por uma narrativa mais contemporânea e inclusiva, estão sedarim nos quais a opressão das mulheres, dos refugiados, dos LGBTQ+, dos negros, ocupam lugar central como expressão contemporânea do sofrimento pelo qual os hebreus passaram em Mitsrayim. A criação de hagadot feministas, por exemplo, é extensa e remonta há quase cinco décadas. Nestes textos, é destacado o papel das mulheres na redenção dos hebreus: Iocheved, a mãe de Moshé que teve a coragem de ter um filho apesar das restrições impostas pelo faraó; Miriam, a irmã que acompanhou a cesta em que Moshé estava e ofereceu ajuda à filha do faraó; Bat-Ia, a filha do faraó, que tendo encontrado um bebê hebreu nas águas do rio, contrariou as ordens de seu pai e salvou-o; Shifra e Puá, as parteiras egípcias que se negaram a seguir as ordens do faraó para matar os meninos hebreus porque eram “tementes a Deus.” Numa adição ao ritual de Pessach que tornou-se bastante comum mesmo fora dos sedarimfeministas, uma laranja foi adicionada à keará, o prato com alimentos simbólicos colocado no centro da mesa. De acordo com Susannah Heschel, a autora desta ideia, “eu escolhi a laranja porque ela sugere como pode ser frutífero para todos os judeus quando lésbicas e homens gays são membros ativos e contribuem para a vida judaica.”[6]

Outra adições recentes à keará incluem azeitonas (em lembrança ao conflito entre israelenses e palestinos, a importância que campos de oliveiras têm para as duas culturas e o sinal de paz e tranquilidade que um ramo de oliveira trazido por uma pomba representou para Noach[7]) e produtos agrícolas nos quais as práticas de produção contemporâneas possam incluir o trabalho em condições similares à escravidão (como cana de açúcar, avelã, cacau e tomate). Em contextos reformistas, cada família e cada comunidade são convidadas a buscar como expressar, de forma ritual, sua preocupação com as questões contemporâneas que envolvam a opressão de grupos ou comunidades.

 

Algumas perguntas para você pensar….

Pessach é conhecida como a festa em que as perguntas são encorajadas. No entanto, algumas perguntas da hagadá são ritualizadas, focadas em tecnicalidades da observância do feriado. Que outras perguntas você gostaria de trazer para o seu seder este ano? Que conversas sobre a Opressão e sobre a Liberdade você gostaria de estabelecer com seus amigos e familiares?

Aqui vão algumas ideias:

 No Chassidismo, a abstinência de chametz é entendida como uma metáfora para o trabalho espiritual de desinflar nossos egos inflados. Tomando esta ideia como ponto de partida, como podemos usar as discussões do seder para melhorar nossa interação com o mundo?

 Conforme mencionado acima, Donniel Hartman nos desafia a considerar o equilíbrio entre o particular e o universal na história que contamos em nossos sedarim. Em sua opinião, qual deve ser a ênfase das conversas ao redor da mesa de Pessach: a libertação dos hebreus do Egito ou a luta contra a opressão nos nossos dias?

 No tempo dos hebreus, os dez “golpes” (normalmente traduzidos como “pragas”) foram a forma que Deus encontrou para forçar o faraó a libertar os hebreus da servidão. De que ferramentas dispomos hoje em dia para agir em defesa dos valores representados por Pessach?

 Muitas vezes, a tradição judaica estabelece que, quando atingirmos uma posição de poder, nosso papel será distinto daquele que era até então, nos obrigando a agirmos com mais ênfase na defesa dos segmentos mais vulneráveis da sociedade (a linguagem utilizada, normalmente, faz referência às viúvas, aos órfãos e aos estrangeiros). De que maneira a criação do Estado de Israel mudou a responsabilidade que judeus têm de agirem pelo fim da opressão nos lugares em que se encontram? 



[1] . Ex. 12:1-13

[2] . Ex. 12:14-20

[3] Ex. 12:25-27; Ex. 13:14-16, Ex. 13: 5-8, Deut. 6:20-25.

[4] . Mishná Pesachim 10:5

[5] . http://blogs.timesofisrael.com/pesach-a-tale-of-two-stories/

[6] . Heschel, Susannah. “Orange on the Seder Plate.” in The Women’s Passover Companion: Women’s Reflections on the Festival of Freedom. Rabbi Sharon Cohen Anisfeld, Tara Mohr and Catherine Spector (eds.). Woodstock, VE: Jewish Lights. 2003. pp. 70-77.

[7] . Gen. 8:11.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Lembra de quem queríamos ser?

(originalmente publicado em http://www.institutobrasilisrael.org/2019/09/27/lembra-de-quem-queriamos-ser/)

No universo dos feriados religiosos, Rosh haShaná e Iom Kipur não estariam na lista das 10 datas mais populares. Com suas metáforas sobre o Dia do Julgamento e o nome (em hebraico) de “Dias Terríveis” (Iamim Norayim), estas datas precisam urgentemente da repaginada de marketing que Jon Stewart pediu para outros feriados judaicos. A verdade, no entanto, é que, por trás do nome pouco popular (abandonado na tradução para o português) e das metáforas complicadas, temos conceitos religiosos profundos que se sobrepõem de forma quase paradoxal: uma autocrítica intensa e um otimismo quase ilimitado.

Tanto a crítica quanto o otimismo têm origem no conceito de tshuvá, palavra em hebraico cuja tradução pode variar de “resposta”, a “retorno” a “arrependimento”. Eu gosto de pensar em todos estes sentidos entrelaçados, nos quais a tshuvá da qual falamos nesta época do ano é a resposta que damos ao nosso processo de cheshbon hanefesh, a “contabilidade da alma”, a reflexão sobre os caminhos que nossas vidas estão tomando. Ao reconhecermos nossas conquistas no ano que termina e identificarmos as áreas em que nos afastamos dos nossos objetivos, tentamos voltar à nossa rota; através do arrependimento, voltamos à melhor versão de nós mesmos. O otimismo é expresso na possibilidade permanente de engajarmos neste processo de tshuvá, mesmo quando o “retorno” implica caminhar uma  grande distância. Estes conceitos, eu acho, foram perfeitamente capturados por um antigo supervisor de estágio meu, o rabino Eric Gurvis, que certa vez distribuiu adesivos após sua prédica de Iom Kipur que diziam “Lembre-se de quem você queria ser”.

Para muitos de nós, lembrarmos de quem queríamos ser pode ser um esforço complexo. A necessidade de pagar a conta do aluguel todo mês ou de acordar cedo para levar os filhos à escola faz com que, muitas vezes, abramos mão de valores que nos eram caros mas que não nos ajudam nas demandas práticas da vida. Como mecanismo de defesa, ao nos distanciarmos dos ideais que tínhamos, apagamos os velhos sonhos. Em algum momento, passamos a acreditar que somos o que sempre tínhamos querido ser, apesar de todas as evidências do contrário.

Países ou movimentos nacionais, no entanto, costumam registrar de forma mais sistemática onde eles gostariam de chegar. Neste Rosh haShaná em que Israel tenta, mais uma vez, organizar um novo governo, vale a pena olharmos para os sonhos que o país um dia teve para si mesmo e pensar o que “Lembre-se de quem você queria ser” pode significar neste contexto. Neste processo, busquei a Declaração de Independência, como documento que expressava os sonhos dos fundadores do Estado. Percebe-se um otimismo claro no documento (alguns diriam “ingenuidade”), a esperança de um relacionamento de parceria com a ONU, de relações possíveis com os países vizinhos, de tratamento equânime entre todos os seus habitantes, de respeito aos seus idiomas, religiões e culturas. Cada um de nós terá suas próprias tshuvot na comparação entre este documento e a realidade do Estado de 71 anos, que precisa pagar o aluguel e acordar cedo para levar as crianças, mas que ainda contém dentro de si muitos dos valores registrados na Declaração de Independência. Quando consideramos “Quem Israel gostaria de ser?”, podemos identificar quais sonhos foram largados ao longo do caminho que, agora, gostaríamos de retomar e nos perguntar qual papel nós brasileiros podemos ter nesta retomada de valores e de sonhos?

Shaná Tová!

Que nossas vidas —  os sonhos, as ações, os valores, as restrições — façam diferença e mereçam ser registradas no Livro das Vidas.



quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Ainda caminhando juntos

Um lindo ditado atribuído ao Rav Nachman de Bretslav (1772-1810) diz que “o dia do seu nascimento foi quando Deus decidiu que o mundo não podia continuar existindo sem você.” Alguns comentaristas imaginam a natureza saudando cada novo bebê que vem ao mundo: as montanhas se curvando, os rios se contorcendo, as árvores batucando. Se é assim que o mundo responde à chegada de uma nova alma, antevendo as possibilidades de ser transformado pelas interações com o recém-chegado, como o mundo responde quando esta alma se despede?  

Algumas vezes, queremos recrutar o apoio da natureza para gritar que não estávamos prontos para esta partida, que ainda sentimos falta do abraço apertado, do sorriso sincero, do carinho e até mesmo das broncas quando eram necessárias. Outras vezes, reconhecemos vidas que foram desfrutadas até seus momentos finais e relacionamentos que nos prepararam para continuar caminhando por conta própria, ainda que sentindo o vazio que pessoas queridas deixam quando partem. 

O Izcór é uma oportunidade oferecida pela tradição judaica para expressarmos em palavras o carinho que sentimos; é nossa forma de agradecer o impacto que pessoas que partiram deste mundo, tiveram em nossas vidas. Ao pedirmos a Deus que se lembre de pessoas muito queridas para nós, acionamos nossas próprias memórias e, desta forma, reforçamos seus vínculos com a corrente da vida eterna. 

Com a lembrança, vem a percepção de que caminhamos com estas pessoas queridas nas nossas próprias jornadas: as percebemos nos abraços apertados que passamos a dar por inspiração delas, na sinceridade do sorriso que aprendemos de seus exemplos pessoais, na forma como retribuímos ao mundo o carinho que delas recebemos, algumas vezes expresso até mesmo em forma de bronca. 

Ao nos olharmos no espelho, muitas vezes as vemos; ao expressarmos nossas próprias opiniões, as escutamos; ao vivermos momentos especiais, sentimos sua presença. Seu legado nos inspira a buscar uma vida que reflita os valores que eles nos ensinaram e por isso seremos eternamente gratos. 

תהיינה נשמותיהם צרורות בצרור החיים

Que suas almas estejam para sempre entrelaçadas na corrente da vida!

 

Gmar Tov!

sábado, 15 de junho de 2019

Introdução ao Sidur Shabat Shalom da CIP

Ao estabelecer a Criação, nos primeiros capítulos de Bereshit (Gênesis), Deus cria a luz e a escuridão; a terra, os mares e o céu; o Sol, a Lua e as estrelas e assim por diante, até que no sexto dia foi criada a humanidade, à imagem e semelhança de Deus. A luz e a escuridão definem o dia, o Sol e a Lua definem os anos e os meses, e já existiam antes do sexto dia, quando a humanidade foi criada. O Shabat, no entanto, só tem sentido depois da criação do primeiro homem e da primeira mulher, que puderam seguir o exemplo Divino, cessar todo o trabalho no sétimo dia e nele descansar.

Nesta mesma história da criação, o sétimo dia - o Shabat - é a primeira de Suas criações que Deus abençoa. O rabino Abraham Joshua Heschel traduziu este conceito, afirmando que, enquanto outras culturas valorizam o espaço e o santificam, o judaísmo santifica o tempo; o Shabat seria o exemplo mais claro desta preocupação judaica com o tempo sagrado, uma catedral no tempo:

O judaísmo é uma religião do tempo visando a santificação do tempo. Diferentemente do homem propenso para a espacialidade, isto é, aquele para quem o tempo é invariável, interativo e homogêneo, para quem todas as horas são iguais, desprovidas de qualidade e conchas vazias, a Bíblia percebe o caráter diversificado do tempo. Não existem duas horas semelhantes. Cada hora é única e uma só, dada naquele momento, exclusiva e infinitamente preciosa. 

O judaísmo nos ensina a nos prendermos à santidade no tempo, a nos vincularmos aos acontecimentos sagrados, a aprender como consagrar santuários que emergem do magnificente curso de um ano. Os “Shabatot” são nossas grandes catedrais (…) [1]

Paradoxalmente, a construção das “catedrais no tempo” ou “palácios no tempo” de que Heschel fala não envolvem nenhum processo físico de construção, mas somente a disposição para vivenciar as 25 horas do Shabat de uma forma radicalmente diferente.

O que faz do Shabat um dia tão especial? Podemos olhar na forma como os Dez Mandamentos justificam a observância do Shabat para começarmos a responder a esta pergunta. Apesar do Shabat aparecer no quarto mandamento tanto no livro de Êxodo quando em Deuteronômio, a formulação é diferente em cada um destes textos.

Em Êxodo [2], somos instruídos a “lembrar do Shabat e santificá-lo”, porque Deus completou a Criação no sétimo dia, nele descansou e o abençoou. Implícita na explicação de que nosso dia do descanso está vinculado ao descanso Divino é o fato da humanidade ter sido criada à imagem de Deus e dever, na medida do possível, adotar a atitude de Deus como exemplo para seu próprio comportamento.

Em Deuteronômio [3], o texto nos instrui a “observar o Shabat e santificá-lo”, porque fomos servos na terra do Egito e Deus nos tirou de lá com mão forte e braço estendido. Nesta formulação, é o fato de sermos livres que nos confere a possibilidade de celebrarmos o Shabat de forma autônoma.

No Shabat, portanto, celebramos nossa humanidade e nossa liberdade. É um dia no qual a ênfase está no que somos, não no que produzimos. Aproveitamos a oportunidade para descansar e nutrir nossas almas novamente [4], vivendo por um dia na ilusão de um mundo perfeito. A tradição rabínica diz que o Shabat é um aperitivo do mundo vindouro, uma época em que todos os nossos problemas estarão solucionados. Por isso, caminhar no Shabat pode ter um ritmo diferente, as conversas no Shabat podem seguir um padrão diferente, de realmente nos importarmos de ouvir as respostas como se tivéssemos todo o tempo para aquela pessoa.

A liturgia de Shabat reflete estas perspectivas. Na sexta-feira, o serviço adicional de Cabalat Shabat antecede Arvit, o tradicional serviço vespertino. Elaborada pelos místicos na cidade de Tsfat no século XVI, a liturgia do Cabalat Shabat é formada por Salmos e piutim (poemas litúrgicos, geralmente extra-bíblicos) que fazem referência aos seis dias da Criação, levando ao descanso do Shabat. Lechá Dodi, um de nossos piutim mais conhecidos, pode ser lido em muitos níveis, como é típico da literatura mística. Em sua leitura mais concreta, é um poema de amor ao Shabat, tratado como uma noiva a quem recebemos com carinho e devoção. O verbo usado no quarto mandamento para “santificar” o Shabat (lecadesh) também é usado quando o noivo se casa com sua noiva, dando origem a esta analogia com o casamento. Um midrash [5] conta que, durante a Criação, cada dia da semana foi alinhado com seu par e o Shabat ficou sozinho; ao reclamar com Deus, o Shabat recebeu o povo de Israel como seu par e é por isso que somos instruídos a “santificá-lo” (ou casar com ele) a cada semana.

Em outras partes do serviço (como na Amidá), procuramos remover as seções em que fazemos pedidos a Deus, em consonância com a perspectiva de que o Shabat é um dia em que vivemos em um mundo perfeito, no qual não temos mais o que pedir. Um midrash [6] já reconhecia o desafio que esta proposição representa e propõe, então, que vivamos como se o mundo fosse perfeito e tivéssemos terminado todas as nossas tarefas. Se não é possível realmente consertar todos os problemas do mundo em seis dias, o Shabat ao menos nos dá inspiração, ao nos permitir vivenciar por algumas horas a experiência de um mundo sem problemas; ao final do Shabat, voltamos ao ritmo da semana, motivados pela realidade alternativa que pudemos conhecer.

Quando o Shabat chega ao fim, nos despedimos dele procurando no ritual da Havdalá e sua luz, seu vinho e seus deliciosos aromas, algum consolo pela despedida. Os seis dias da Criação são uma necessidade de nosso mundo físico, sem o qual não haveria a possibilidade do Shabat, mas há muito tempo a tradição judaica vem buscando trazer dimensões do Shabat para o resto da semana, santificando nossas experiências a cada momento. [7]

Como podemos tornar nossas relações durante a semana tão verdadeiras quanto no Shabat? Como transformar o ritmo do nosso andar também durante a semana e abrir os olhos para a beleza do processo contínuo da Criação? Como resignificar nossas ações no mundo, reconhecendo nossa humanidade e liberdade também durante os seis dias da semana?

A poetisa litúrgica Marcia Falk refletiu a busca por uma relação equilibrada entre as demandas da semana e o descanso do Shabat em seu poema para a havdalá:

Distinguamos partes dentro do todo e abençoemos suas diferenças.

Como o Shabat e os seis dias da criação, que relacionamentos tornem nossas vidas completas.

Da mesma forma que o descanso torna o Shabat precioso, que o trabalho dê significado à semana.

Separemos o Shabat dos outros dias da semana,

Buscando santidade em ambos. [8]

Que este seja nosso esforço constante: a busca de santidade em todos os momentos de nossas vidas. O Shabat tem o potencial de ser um grande catalizador desta busca se nos permitirmos realmente desfrutar destas 25 horas nas quais aquilo que somos conta muito mais do que aquilo que fazemos.

Shabat Shalom!



[1]  Heschel, Abraham J., O Schabat: seu significado para o homem moderno. São Paulo: Editora Perspectiva, 2004. pag. 9-19. 

[2] Ex. 20:8-11.

[3] Deut. 5:12-15.

[4] De acordo com Ex. 31:17.

[5] Bereshit Rabá 11:8.

[6] Mechilta de Rabi Ishmael, baChodesh/Itrô, 20:9.

[7] Veja, por exemplo, a discussão entre Hilel e Shamai no Talmud Bavli Beitzá 16a.

[8] Falk, Marcia. The book of blessings : new Jewish prayers for daily life, the Sabbath, and the new moon festival. San Francisco, Calif: HarperSanFrancisco, 1996. pag. 318.