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terça-feira, 1 de agosto de 2023

Dando vida às partes mortas de nós mesmos

(originalmente publicado em https://indd.adobe.com/embed/c46e5aff-75fa-470d-bb34-6aea8363aa38)

Nos últimos anos, nas cerimônias de Izcór que eu conduzi, eu tenho lido um artigo lindo da Eliane Brum[1] em que ela diz que o nosso mundo morre antes da gente e que, nesse processo, parte de quem somos vai embora também. A verdade é que morremos em parte com cada pessoa querida que nos deixa, perdemos memórias e sonhos.

Para alguns de nós, perdemos aqueles que mais nos conheciam intimamente, com quem compartilhamos os melhores e os mais difíceis momentos de nossas vidas e cujo olhar carinhoso era suficiente para nos sentirmos bem em qualquer situação. Em outros casos, perdemos aqueles que conheciam nossas histórias e as validavam, que compartilhavam experiências comuns, lugares, brincadeiras e códigos de comunicação que ninguém mais entendia. Assim, com sua partida, se foi também parte do nosso passado.

Mas há também as situações em que sentimos que perdemos o potencial do futuro quando pessoas centrais em nossas vidas falecem. Não raras vezes fomos obrigados a abrir mão do sonho de que nossos filhos e netos pudessem conviver por muito tempo com pessoas que foram de profundo impacto nas nossas vidas. Tivemos que lidar com a realidade de que não envelheceríamos ao lado de quem sonhamos ou de que passos importantes das nossas vidas teríamos que dar sozinhos, sem termos aqueles que perdemos ao nosso lado para nos incentivar e fortalecer.

Na segunda benção da Amidá, agradecemos a Deus por “dar vida aos mortos”, uma frase que tem intrigado rabinos há gerações e gerado várias direções de interpretação e formulações alternativas. Há quem a tenha substituído por uma fórmula que  agradece a Deus “por dar vida a tudo que tem vida” e quem literalmente acredite em um momento apocalíptico em que os mortos ressuscitarão e entre essas posições, há muitas abordagens metafóricas que tentam explicar de que forma podemos entender a expressão “dar vida aos mortos”.

No serviço de Izcór, ao relembrar de pessoas queridas que faleceram, tentamos mantê-los conectados à corrente da vida, através de nossas memórias e das condutas e valores que aprendemos deles. Buscamos também ressuscitar as partes de nós mesmos que morreram com eles, honrando o papel que as pessoas de quem nos lembramos hoje tiveram em nos tornar quem somos e a chegar onde chegamos. Assim, retomamos nossa relação com nosso próprio passado, suas histórias, lugares, cheiros, sons e experiências, ao mesmo tempo em que conseguimos voltar a sonhar com novas experiências que criaremos daqui para frente. É assim que melhor honramos a memória daqueles que partiram.

Shaná Tová uMetucá!

Que seja um ano doce e cheio de novas memórias!


[1] https://bit.ly/3sl4M1Q


quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Mais do que lembrar, queremos reviver

(originalmente publicado em https://cip.org.br/lm-rogerio-cukierman/)

Izcor”, o nome da cerimônia através da qual relembramos quatro vezes ao ano – incluindo Iom Kipur – nossos entes queridos que já faleceram, significa em hebraico “lembre-se”. É o começo de uma frase na qual pedimos a Deus que recorde e que mantenha as pessoas que amamos conectadas à corrente da vida.


Muitas vezes, no entanto, nos recordamos delas e sentimos suas vidas entrelaçadas com as nossas todos os dias, quando estamos em  dor e precisamos de consolo, quando celebramos uma conquista ou outro fato feliz de nossas vidas, quando nos olhamos no espelho e enxergamos seus traços nos nossos, quando nos ouvimos dizendo frases que eles nos ensinaram ou vivendo de acordo com valores que herdamos deles.

 

Já à primeira vista, fica claro que a memória é uma característica central da tradição judaica: a transmissão da tradição de geração em geração, le’dor va’dor, especialmente festas judaicas relacionadas a um tempo passado. Quando nos detemos a observar com mais cuidado, no entanto, percebemos que, mais do que relembrar, o que a tradição judaica busca é reviver tempos passados, nos ordenando que saiamos pessoalmente de Mitsrayim a cada Pessach e que recebamos a Torá pessoalmente a cada Shavuot, e assim por diante.

 

Da mesma forma, mais do que relembrar pessoas tão queridas que partiram em anos passados, o exercício de mantê-los conectados à corrente da vida através da memória nos permite vivenciar o tempo, em particular nossos períodos mais sagrados, como se eles ainda estivessem aqui conosco, perceber o impacto que eles continuam tendo em nossas vidas, celebrar suas vidas mesmo quando lamentamos que eles tenham partido.

 

Que nossos esforços sejam frutíferos e que consigamos sentir sua presença, sua influência e seu impacto a cada dia do novo ano.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

A Dor de Cada Um e a Dor da Comunidade

(originalmente publicado em https://cip.org.br/livrodememorias2021-2/)

Nas últimas semanas, descobri uma nova melodia para o Salmo 147, que passamos a cantar no Shacharit de Shabat [1]. Suas palavras, que estão nos versículos 3 e 4 do Salmo, afirmam sobre Deus: “Cura as pessoas com o coração partido e trata das suas tristezas; determina o número das estrelas e dá nome a cada uma delas.”

Toda vez que cantamos esta melodia, eu fico maravilhado com a doçura de suas palavras, do carinho implícito na visão do Divino que acolhe especialmente as pessoas sofrendo e enxerga tanto o grande esquema do universo (quando conta as estrelas) quanto reconhece a individualidade de cada um (quando lhes dá nomes). 

Neste ano, em que perdemos tantas pessoas queridas e no qual nosso país sofreu tanto, tivemos o desafio de aprender com a conduta Divina: ao endereçarmos a macro-perspectiva, reconhecemos a dor coletiva e a responsabilidade de fazermos parte de uma comunidade e de uma sociedade que estão, de forma coletiva, em luto; ao mesmo tempo em que, cada um na sua realidade individual, sofre pela perda de pessoas próximas, cujo vazio nos fala especialmente alto. O desafio é estarmos simultaneamente presentes para o  nosso próprio sofrimento e o da nossa casa, da nossa rua, da cidade e de todo o mundo.

No Izcór, realizamos um movimento similar: ao fazermos esta reza em comunidade, afirmamos nosso pertencimento e expressamos empatia para com as pessoas com quem rezamos (mesmo que, neste ano, não possamos vê-las); criamos memórias coletivas e homenageamos pessoas com quem, muitas vezes, não convivemos. Além de um momento comunitário, o Izcór é também uma parte profundamente pessoal do serviço religioso, no qual revisitamos a dor pelas pessoas que perdemos no último ano ou antes disso, honramos sua memória e expressamos a saudade que sentimos.

Nosso apoio mútuo e a forma como conduzimos nossas vidas são as melhores formas de honrarmos as memórias pessoais e coletivas que trazemos à tona no Izcór. O legado vivo das pessoas que mais amamos se dá através dos valores que elas puderam nos transmitir e pelos quais elas continuam entrelaçadas à corrente da vida.


[1] A melodia que temos cantado, de autoria do rabino Shiar Yaakov, pode ser encontrada aqui: https://www.youtube.com/watch?v=AyyUR2K29BM

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Quando cada vida vale por todo o mundo

(originalmente publicado em https://cip.org.br/wp-content/uploads/2020/09/Livro-Memorias_Grandes-Festas-5781_OK.pdf)

 

Eu dedico esse comentário à memória de Silvia Belk Keila, 

uma prima querida que faleceu em Sh’mini Atséret de 5780.

 

Nos últimos meses, nos acostumamos a ver nas manchetes dos jornais números diários de mortos pela Covid-19. Ainda me lembro quando o Brasil atingiu vinte mil mortos em maio: as mensagens nas redes sociais e os artigos na imprensa destacaram essa triste marca e lembraram quem eram algumas das pessoas que haviam falecido, impedindo que a frieza dos números nos cegasse para a dimensão humana desta tragédia. No entanto, com o passar das semanas e dos relatos diários, fomos nos acostumando com o ritmo de mortes e paramos de pensar nas vidas que se perderam. No ritmo atual, mais de vinte mil pessoas morrem de Covid-19 por mês no Brasil, mas as postagens e os artigos se tornaram muito mais raros e, assim, sabemos bem menos sobre quem eram essas pessoas.

 

Nestes meses de isolamento, em que passamos mais tempo em casa, sentimos também mais falta do contato humano com nossos pais e avós, com nossos professores, mentores e colegas, com amigos próximos e com nossos filhos. Em alguns casos, a tecnologia tem nos ajudado a diminuir a distância e mantermo-nos em contato; mas não há tecnologia que nos ajude a diminuir a falta que sentimos daqueles que já faleceram. Nestes casos, ao contrário da situação em que o número nos dessensibiliza, nós sabemos que cada pessoa é insubstituível, que cada vida perdida é realmente como se tivéssemos perdido todo o mundo. Em muitos casos, a falta que sentimos deles nesses meses de isolamento tem sido ainda maior do que em anos anteriores.

 

No Izcór, relembramos de seus exemplos e da forma como nos impactaram. Buscamos resgatar seus valores e exercer nas nossas vidas o que deles aprendemos. A se entregar com generosidade como eles faziam, a amar a vida como eles amaram, a transformar o mundo e as outras pessoas como eles fizeram. Ao pedirmos a Deus que se lembre deles, relembramos à fagulha Divina em cada um de nós que os mantenha para sempre conectados à corrente das nossas vidas.

 

Gmar Tov!

 

 

 

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Ainda caminhando juntos

Um lindo ditado atribuído ao Rav Nachman de Bretslav (1772-1810) diz que “o dia do seu nascimento foi quando Deus decidiu que o mundo não podia continuar existindo sem você.” Alguns comentaristas imaginam a natureza saudando cada novo bebê que vem ao mundo: as montanhas se curvando, os rios se contorcendo, as árvores batucando. Se é assim que o mundo responde à chegada de uma nova alma, antevendo as possibilidades de ser transformado pelas interações com o recém-chegado, como o mundo responde quando esta alma se despede?  

Algumas vezes, queremos recrutar o apoio da natureza para gritar que não estávamos prontos para esta partida, que ainda sentimos falta do abraço apertado, do sorriso sincero, do carinho e até mesmo das broncas quando eram necessárias. Outras vezes, reconhecemos vidas que foram desfrutadas até seus momentos finais e relacionamentos que nos prepararam para continuar caminhando por conta própria, ainda que sentindo o vazio que pessoas queridas deixam quando partem. 

O Izcór é uma oportunidade oferecida pela tradição judaica para expressarmos em palavras o carinho que sentimos; é nossa forma de agradecer o impacto que pessoas que partiram deste mundo, tiveram em nossas vidas. Ao pedirmos a Deus que se lembre de pessoas muito queridas para nós, acionamos nossas próprias memórias e, desta forma, reforçamos seus vínculos com a corrente da vida eterna. 

Com a lembrança, vem a percepção de que caminhamos com estas pessoas queridas nas nossas próprias jornadas: as percebemos nos abraços apertados que passamos a dar por inspiração delas, na sinceridade do sorriso que aprendemos de seus exemplos pessoais, na forma como retribuímos ao mundo o carinho que delas recebemos, algumas vezes expresso até mesmo em forma de bronca. 

Ao nos olharmos no espelho, muitas vezes as vemos; ao expressarmos nossas próprias opiniões, as escutamos; ao vivermos momentos especiais, sentimos sua presença. Seu legado nos inspira a buscar uma vida que reflita os valores que eles nos ensinaram e por isso seremos eternamente gratos. 

תהיינה נשמותיהם צרורות בצרור החיים

Que suas almas estejam para sempre entrelaçadas na corrente da vida!

 

Gmar Tov!