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sexta-feira, 9 de maio de 2025

Dvar Torá: O que "amar ao próximo como a nós mesmos" pode nos ensinar hoje? (ACIB)


Há alguns anos, o New York Times publicou um artigo na coluna Modern Love que teve grande repercussão. A autora, Mandy Len Catron, relata um experimento baseado num estudo acadêmico: ela e um conhecido sentaram-se frente a frente e responderam, uma a uma, a 36 perguntas pessoais, seguidas por alguns minutos de contato visual direto. O objetivo era induzir intimidade — e, quem sabe, amor. Surpreendentemente, funcionou. Os dois, que não estavam romanticamente envolvidos antes, acabaram apaixonados.

O que esse experimento sugere é que o amor não é apenas algo que “acontece” conosco. Ele pode ser construído. Podemos deliberadamente criar conexões emocionais — com tempo, atenção e vulnerabilidade. E se isso vale para o amor romântico, por que não também para o amor ético?

Esse é justamente o convite — ou o desafio — que aparece na parashá desta semana, em um dos versos mais conhecidos de toda a Torá:

“Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Eu sou ה׳.” (Levítico 19:18)

Mas essa frase tão familiar é, na verdade, profundamente desconcertante e nos deixa com muitas perguntas. Como se pode mandar alguém amar? O que, afinal, significa amar o próximo? E quem é esse próximo? E por que a equivalência com o amar a você mesmo?

Vamos tratar de duas destas perguntas hoje...

A primeira pergunta -- O que significa “amar como a si mesmo”? Maimônides, no Mishnê Torá, oferece uma resposta eminentemente prática. Amar o próximo, segundo ele, não é um sentimento passivo, mas algo que se concretiza em ações. Ele escreve:

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo — isso significa que tudo o que você deseja que os outros façam por você, faça você por seus irmãos e irmãs.”

Para Maimônides, amar o próximo é visitar os doentes, consolar os enlutados, acompanhar os mortos, celebrar com os noivos, ajudar em necessidades concretas. É, portanto, uma mitzvá ativa, incorporada na rotina da vida comunitária. O amor, aqui, não se limita à esfera da emoção: ele se realiza através do cuidado.

Nachmânides, o Rambanm por sua vez, reconhece que pode ser impossível amar o outro com a mesma intensidade com que amamos a nós mesmos. Mas ele propõe uma exigência igualmente desafiadora:

“Devemos desejar para o outro tudo o que desejamos para nós — e fazê-lo sem reservas.”

O problema, segundo Nachmânides, é que o ser humano tende a manter a vantagem: deseja o bem ao outro, mas desde que isso não o iguale a si próprio. A Torá, então, exige o contrário: que desejemos plenamente o bem do outro, mesmo que isso signifique abrir mão da nossa superioridade.

O rabino Shmuel Goldin resume essa ideia com uma frase marcante:

“A Torá não está exigindo o impossível — apenas o extraordinariamente difícil.”

Essa leitura nos convida a pensar o amor não como um sentimento natural, mas como uma orientação interna para desejar, de forma verdadeira, o florescimento do outro — e agir em consonância com esse desejo.

Por fim, Erich Fromm, no livro The Art of Loving, diz que o “amor é uma atividade… é principalmente dar, não receber” De acordo com ele, no ato de se dar, não perdemos, sacrificamos ou abrimos mão daquilo que nos é precioso. Amar é expressar nossa vitalidade, é desejar o crescimento e a plenitude da pessoa amada. Mas ele adverte: “Se um indivíduo ama apenas os outros, mas não a si mesmo, ele não ama de verdade”.

A segunda pergunta -- Quem é esse “próximo” que somos instruídos a amar? Pela tradução usual, “próximo” pode indicar alguém emocionalmente próximo de mim; já em outras versões, traduzido como “vizinho”, o termo pode sugerir quem está fisicamente próximo. Mas, no fundo, a pergunta essencial permanece: a quem se aplica essa obrigação? Apenas aos judeus? Também aos não judeus?

O contexto imediato do versículo parece apontar para uma limitação do mandamento -- amar apenas quem tem já faz parte do grupo. Os versículos anteriores falam sobre não tratar com indignidade os membros do teu povo, não odiar teus irmãos, repreender os membros do teu povo, não guardar rancor e não se vingar “de alguém do teu povo”. 

Isso tem levado muitos comentaristass a argumentarem que o mandamento se restringe aos israelitas bíblicos — ou, numa leitura contemporânea, apenas aos judeus.

Essa leitura alega também que nossas obrigações são mais fortes para com aqueles de quem somos próximos. A doença de uma criança vivendo em outro continente não tem o mesmo peso emocional que quando o meu filho fica doente. Da mesma forma, pessoas vivendo na rua da minha cidade cortam meu coração muito mais do que o conhecimento de que pessoas vivem na rua do outro lado do mundo. Em uma passagem talmúdica que fala da nossa obrigação de ajudar quem precisa, isso é expresso da seguinte forma:

se houver escolha entre uma pessoa judia e uma não judia, a pessoa judia tem preferência; entre uma pessoa pobre e uma rica, a pessoa pobre tem prioridade; entre os pobres da própria família e os pobres em geral da cidade, os da família vêm primeiro; entre os pobres da própria cidade e os de outra cidade, os da própria cidade têm prioridade.[1]

No entanto, há fortes argumentos internos à própria Torá para uma interpretação bem mais ampla para a obrigação de amar ao próximo: Levítico 19:33–34, apenas alguns versículos depois, diz:

“Quando estrangeiros residirem com vocês em sua terra, não os oprima. Eles serão para vocês como os cidadãos, e você os amará como a você mesmo, pois vocês foram estrangeiros na terra do Egito. Eu sou ה׳ seu Deus.”

Mesmo em uma leitura estreita, o estrangeiro -- que em linguagem bíblica representa todas as pessoas vivendo em situação de opressão -- é colocado no mesmo nível legal e moral do cidadão israelita. A obrigação, desta forma, seria, pelo menos, de anar todos os israelitas e todos oss oprimidos. 

Além disso, podemos argumentar que, num mundo em que os israelitas interagiam quase exclusivamente com seus pares e com os estrangeiros residentes, os dois mandamentos juntos — amar o “próximo” e o “estrangeiro” — abarcam praticamente todos com quem se convivia. Nesta linha de raciocínio, o rabino britânico Louis Jacobs escreveu:

“Em uma sociedade distinta, na qual os israelitas vivessem junto a não-israelitas, as implicações do mandamento geral se estenderiam para incluir também estes.”

Finalmente, o versículo termina com as palavras “Eu sou ה׳” — uma frase que, como muitos comentaristas sugerem, indica que esse amor é exigido não por afinidade ou conveniência, mas por princípio. Porque TODA a humanidade, segundo a tradição judaica, foi criada b’tzelem Elohim, à imagem Divina, o mandamento de amar não pode se restringir a um grupo. Ele é, por definição, universal.

Em um livro no qual argumenta que o amor — por Deus, pelo próximo e por si mesmo — está no centro da teologia e da prática judaica, apesar de muitas vezes ter sido negligenciado ou marginalizado, Shai Held analisa a passagem do Talmud mencionada acima, que estabelecia prioridades para nossas obrigações de ajudar quem precisa:

O comentarista talmúdico Menahem HaMeiri observa que, implícita na afirmação de que nossas obrigações com x “têm precedência” sobre nossas obrigações com y, está a ideia de que temos obrigações com ambos — x e y. Por exemplo, damos prioridade a um parente pobre, mas ainda assim temos a obrigação de ajudar outra pessoa necessitada da nossa cidade. Para HaMeiri, é especialmente importante destacar que, embora os pobres judeus tenham precedência sobre os pobres não judeus, é de forma inequívoca uma mitzvá e uma exigência moral ajudar ambos. [2]

No mesmo livro, Shai Held, refletindo sobre a obrigação de amar ao próximo como a si mesmo, escreve:

Podemos aprender a sentir compaixão ou preocupação diante do sofrimento de um grupo étnico desprezado por aqueles ao nosso redor “por meio de esforços de imaginação e empatia — esforços para conceber como seria estar no lugar dessas pessoas, enfrentar suas lutas, viver suas batalhas.” Em outras palavras, enxergar ou não os membros de uma minoria alvo em toda a sua humanidade depende, em grande medida, das decisões e compromissos que tomamos — ou deixamos de tomar. [3]

Essa reflexão se torna ainda mais urgente em tempos de conflito. Com frequência, vemos lados opostos de um embate — especialmente quando atravessado por dor e violência — incapazes de enxergar o sofrimento do outro. Choramos as perdas “do nosso lado”, mas nos tornamos indiferentes às vítimas do “outro lado”. Quando isso acontece, falhamos no cumprimento do mandamento de amar o próximo como a nós mesmos.

O amor ético que a Torá propõe não é automático, nem confortável. Ele exige esforço, imaginação, humildade. Ele nos convida a sair da bolha de nossos afetos naturais e a nos comprometer com o reconhecimento da dignidade humana — mesmo quando isso nos custa.

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou ה׳.”

Que essa frase não seja apenas um ideal recitado, mas um compromisso vivido — em nossas relações pessoais, em nossa comunidade e nas escolhas que fazemos frente à dor do outro.

Shabat Shalom!



 

[1] Talmud Bavli Bava Metzia 71a

[2] Shai Held, Judaism is about Love, posição 135/524 (Kindle)

[3] Shai Held, Judaism is about Love, posição 109/524 (Kindle)

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Dvar-Torá: Amar – verbo transitivo e intransitivo (CIP)

Nestes tempos de Covid, as aulas que a gente tem feito, as reuniões até o serviços religiosos (com exceção desse Cabalat Shabat) têm sido transmitidas das nossas casas, o que traz complicações sobre as quais ninguém tinha falado no seminário rabínico. Complicações sobre a qualidade da conexão, sobre o gerenciamento de quem pode falar a cada hora e, principalmente, qual fundo vamos escolher para a nossa transmissão. Cada fundo manda uma mensagem…. eu tenho a sorte de ter uma estante cheia de livros judaicos contra a qual eu costumo falar — são muitos livros, muitos. Meus filhos vivem perguntando se eu os li todos e, meio constrangido, eu tento explicar que são livros de consulta, que a gente vai lendo aos poucos quando precisa, um capítulo de cada vez….

Tem outros livros sobre os quais eu sei ainda menos do que aqueles que estão na minha estante; títulos que eu lembro da mesa de cabeceira da minha mãe quando eu estava crescendo. Eu nunca li os livros, mas sempre achei os títulos super bem bolados: “Não apresse o rio, ele corre sozinho”, de Barry Stevens e “Amar, verbo intransitivo”, de Mario de Andrade.

Amar - verbo intransitivo. Eu sempre fiquei pensando nisso. Será que o amar é uma capacidade que a gente desenvolve, independentemente do objeto desse amor ou nossa capacidade de amar depende de termos encontrado o destino desse amor?

Na parashá dessa semana, na parte de “kedoshim” de “acharei mot-kedoshim”, temos um dos versículos mais famosos da Torá: ואהבת לרעך כמוך, “ame a teu próximo como a ti mesmo.” Eu queria parar e pensar um pouquinho nessa ideia.

Uma primeira mensagem implícita em “ama a teu próximo como a ti mesmo” é que amemos a nós mesmos. Em época de pandemia, em que passamos tanto tempo isolados, o convívio com os nossos próprios “eus” se tornou, para muitos de nós, ainda mais frequente. Como em toda relação levada ao extremo, nosso isolamento pode nos levar a uma certa exaustão de nós mesmos. Nossas falhas ficam mais evidentes, nossos pontos fortes podem parecer apagados e menos relevantes. É fundamental lembrar que por trás do “ama a teu próximo como a ti mesmo” está a ideia de que fomos criados à imagem Divina; o teu próximo e também você mesmo. Adote um pouco de cuidado com você mesmo: seja mais tolerante com suas falhas, entenda que as coisas não estão fáceis e se permita um pouquinho de mimos: tome um banho gostoso, se vista como se fosse sair, prepare uma refeição deliciosa, mesmo que seja só você que vai comê-la. Tente ter alguma atividade física ao longo do dia e fazer alguma coisa ao longo do dia de que você goste muito.

A segunda premissa de “ame a teu próximo como a si mesmo” é que o teu próximo não é você. É uma outra pessoa, com toda a sua complexidade. Ás vezes, a gente sonha se relacionar com pessoas que sejam idênticas a nós mesmos, mas a ética judaica enfatiza o encontro com o outro. Um outro cujas preferências não são idênticas às nossas, que tem suas vontades, suas necessidades. Nestes tempos de quarentena, vivendo tanto tempo com as mesmas pessoas, nossas relações com o outro acabam se desgastando também. E aqui também precisamos ser um pouco mais generosos, reconhecer que muitos de nós estamos estressados, preocupados com o momento atual e com o que virá na sequência — não tem sido fácil e muitas vezes descarregamos as frustrações justamente em quem está mais próximo. Aqui vai a dica para tentamos evitar isso do nosso lado e para sermos mais tolerantes quando o “próximo” estiver tendo um dia mais difícil.

E quando o “próximo” não for tão próximo assim? O criador do chassidismo, o Baal Shem Tov, já falava que o grande teste de “ame ao teu próximo como a ti mesmo” é amar aqueles de quem discordamos. Em tempos de posicionamentos políticos acirrados, com os nervos à flor da pele, é fácil esquecer essa lição. Emanuel Levinas, um dos grandes nomes da filosofia judaica do século XX, falava da nossa responsabilidade pelo outro. A empatia, a capacidade de nos imaginarmos na pele de outra pessoa, vivendo sob as suas pressões e com os seus valores, é uma das características que nos diferencia como seres humanos. Neste momento de dificuldades coletivas, “amar a teu próximo como a ti mesmo” é também se sentir co-responsável por aqueles cujas posturas são diametralmente opostas à tua, é não ser tão rápido para julgar o outro até que você não tenha estado no lugar dele, é termos paciência e compaixão. É entender que a sociedade se faz entre diferentes e que só vamos sair dessa crise juntos.

Então, vamos reaprender a amar como verbo intransitivo - o tipo do amor que a gente carrega onde quer que vá e que se manifesta em todos os momentos das nossas vidas, em todas as interações. E vamos também reaprender a amar como verbo transitivo. Amar a nós mesmos e amar aos outros, próximos e distantes; com generosidade, com compaixão, com respeito e valor.

Shabat Shalom!