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quinta-feira, 27 de novembro de 2025

The Grammar of Tradition

During my first period living in Israel, I studied in a university Ulpan alongside a diverse group of immigrants and students. One of my classmates was a member of the US military, sent to Israel to pursue a master’s degree. He once shared a fascinating detail about his selection process. Before the military approved him for the programme, he had to pass an exam testing his aptitude for learning foreign languages. The exam, he explained, was not about knowing any specific language like Hebrew or Arabic. It was a test of structural flexibility, the ability to understand that the grammatical structures valid in one language might not exist in another. “That said,” he told us, “the more languages one speaks, the easier it is for that realisation to take hold.”

The same is true for Jewish tradition. We often grow up in a specific community, taking for granted that everyone in the Jewish world follows the exact same customs. It is only when we visit different communities that we realise our “dialect” of Judaism is just one of many. We discover that different communities, sometimes even within the same city, hold different traditions, and this variety is precisely what makes Jewish life so diverse, rich, and beautiful.

One of the main differences I encountered when I arrived in South Africa concerned how a wedding is officiated. I learned that here, the b’deken (veiling ceremony) is a separate ritual held a few minutes before the wedding starts, often in a private space with only the closest guests present. I had never heard of such a separation.

To be sure, the b’deken, which many sources relate to the episode in this week’s Parashah, Vayetze, where Yaakov marries Leah thinking she is Rachel, has been part of every wedding I have ever officiated.[1] However, in my previous experience, the veiling of the bride happened at the end of the aisle. It was the natural conclusion of the processional, witnessed by all the guests just before the couple stepped under the chuppah.

With time and experience officiating the South African way, I have come to appreciate the intimacy this separate ceremony offers. It provides a quiet, sacred space in the final, frenetic minutes before the chuppah, allowing the couple to be showered with blessings from their closest family and friends.

When I researched the origin of these differences, the “grammar” of the tradition became clear. Because the vast majority of South African Jewry traces its roots to Lithuania and Latvia, the “Litvak” model, which emphasises a clear separation of the wedding stages, became the dominant norm here.

In Brazil, however, the story is different. The Jewish community there (as well as in Argentina, France and parts of the US) is a true melting pot, formed by significant groups of immigrants from Poland, Russia, Romania and Germany, alongside a large Sephardic population from Morocco, Syria, Lebanon and Egypt.

In many Sephardic circles, there is traditionally no b’deken at all. As these communities mixed in South America and elsewhere, the practice that became the norm was a compromise between the separate Ashkenazi b’deken (as in South Africa) and the Sephardic absence of one. The solution was a public, shorter b’deken at the aisle, a fusion that honours the Ashkenazi custom of veiling while maintaining the unified, seamless flow typical of Sephardic celebrations.

This brings me back to the Progressive approach to Judaism. One of our defining characteristics is the recognition that Judaism is not static. It is the product of the historical experiences of the Jewish people in the places we have lived. Our traditions developed in slightly different ways across the globe, interacting with different cultures and sociological realities.

Just as my classmate learned that different languages have different structures, we learn that Jewish tradition has different “dialects”. Recognising that ours is just one way of speaking this holy language does not diminish it. Rather, it highlights that this adaptability is part of what makes our culture so rich, so colourful and so strong.

Shabbat Shalom!

[1] Some commentators alternatively trace the practice of b’deken to Parashat Chayei Sarah (Genesis 24:65), where Rivkah lowers her veil upon seeing Yitzchak for the first time.



sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Dvar Torá: Revertendo Invisibilidades (CIP)


Neste ano sui-generis em que nós estamos vivendo, os encontros que de turmas que estamos tendo estão, em geral, associados aos jogos do Brasil na Copa, como foi caso hoje. Em outros anos, no entanto, estaríamos em reuniões e confraternizações de fim de ano: inúmeros happy hours, dos quais nunca reclamamos, e só ficava difícil acordar e ir pro trabalho na manhã seguinte depois da bebedeira noturna da qual tínhamos participado. 

Aqui na CIP o final do ano é a oportunidade de concluir vários dos nossos programas com participações no Cabalat Shabat: na semana passada foi a vez da Escola Lafer, e hoje, a do Manhigut.

Há pouco mais de três anos, eu tive minha primeira experiência conduzindo um shabat da Escola Lafer, que eu tinha recém começado a coordenar. No final da minha prédica, em reconhecimento à equipe profissional e voluntária, eu convidei todos a subirem na bimá. Quando eu estava lendo os nomes, eu escuto da primeira fila, uma das nossas morot dizer “ele esqueceu de mim…”. Rapidamente, eu coloquei o nome da morá na lista que eu ainda estava lendo e evitei por um triz que ela se sentisse ainda mais desprestigiada. 

Quem nunca? Quem nunca esteve na posição de se sentir invisível? De escutar um comentário no qual a pessoa, sem ter tido a menor intenção de te ofender, simplesmente não te considerou. Num grupo de pais da escola, em que participam pais e mães, alguém se referir no coletivo “então, amigas….”. Ou quando falam sobre o Brasil como um país cristão, ignorando todas as outras perspectivas religiosas que tanto contribuíram para a construção deste país. Ou quando assumem que todos os judeus têm a mesma posição política, claramente te excluindo da tua própria comunidade.

Quem também já não cometeu um desses deslizes, involuntário, na maioria das vezes sem se dar conta de que estava excluindo alguém. E a pergunta que sempre precisamos fazer é: “o que fazemos quando nos damos conta do nosso descuido? Como podemos reparar o erro?!”

Se vocês derem uma olhada na página 21 do sidur, no comecinho da Amidá, vocês verão que, na benção em que invocamos o Deus dos nossos antepassados, nos referimos ao Deus dos nossos patriarcas, Avraham, Itschak, Iaacóv, e das nossas matriarcas, Sará, Rivcá, Rachel e Leá. Quem está na CIP há algum tempo sabe que nem sempre foi assim nos nossos sidurim. Na edição anterior do Shabat Shalom, que só substituímos em 2020, ainda fazíamos referência apenas aos patriarcas e no Shavua Tov, o sidur que usamos durante a semana, em uma edição de 2013, há duas colunas: permitindo que quem queira optar pela “versão tradicional” continue omitindo as mulheres, enquanto quem optar pela “versão igualitária”, as inclui. Certamente, já avançamos quando tornamos visíveis as mulheres de quem descendemos, e não apenas os seus maridos. Reconhecendo e aplaudindo este avanço, precisamos reconhecer que continuamos tornando invisíveis parte das mulheres de quem descendemos.

A parashá desta semana, Vaietsê, conta da fuga de Iaacóv, depois de ter se passado por seu irmão Essáv e recebido a benção da primogenitura no lugar dele. Durante os 20 anos seguintes, Iaacóv, que até então tentava trilhar seu caminho sempre levando vantagem, algumas vezes trapaceando mesmo, vê os papéis se inverterem. Seu sogro, titio Laván, o trapaceia inúmeras vezes, começando com seu casamento, em que ele queria casar com a filha mais nova, Rachel, mas quando acorda se vê casado com a filha mais velha, Leá. E essas são as duas matriarcas cujos nomes fecham a lista que passamos a mencionar na Amidá: Sará, Rivcá, Rachel e Leá.

Elas não são, no entanto, as únicas mulheres com quem Iaacóv tem seus doze filhos homens, aqueles que darão origem às doze tribos de Israel. Quando Rachel não podia ter filhos, deu Bilá, sua serva, para Iaacóv como sua esposa, “para que [pudesse] ter um filho através dela” [1]. Bilá e Iaacóv tiveram Dan e Naftalí. Quando Leá deixou de ter filhos, ela também entregou sua serva, Zilpá, para Iaacóv como esposa [2] e ela teve, com Iaacóv, Gad e Asher. Juntas, elas deram à luz um quarto dos filhos de Iaacov mas, mesmo assim, não têm sido reconhecidas como matriarcas do povo judeu.

Heather Burrow afirma: “Elas são frequentemente apresentadas como objetos semelhantes a escravos, sem voz na narrativa, que agem apenas a mando de outros. Elas nunca são apresentadas como sujeitos com voz, agência ou poder. Assim, elas foram esquecidas como indignas ou ignoradas como se não fossem merecedoras de destaque”, mas, depois de estudá-las, ela ganha uma nova perspectiva “(…) sua história ressoa com tantos que não têm voz ou poder. É uma história da silenciosa humildade de mulheres marginalizadas cujos filhos têm uma vida melhor como resultado. Eu afirmo que essas duas mulheres são identificáveis e dignas de emulação por razões diferentes das Matriarcas mais conhecidas.” [3]

No texto bíblico, são poucas as referências a Bilá e a Zilpá. Nunca ouvimos uma palavra que elas tenham pronunciado. O pouco que sabemos é que Bilá sofre um ato de violência sexual por parte de Reuven, o filho mais velho de Iaacóv.

Na falta de informação vinda da Torá, os midrashim fazem a festa. Sobre Bilá, há quem diga que ela era sobrinha de Dvora, a ama de leite de Rivcá; outros comentários indicam que tanto Bilá quanto Zilpá eram meia-irmãs de Rachel e Leá, filhas de Laván com concubinas suas [4]. Alguns midrashim indicam que, quando Rachel faleceu, Bilá assumiu seu lugar, criando Iossêf e Biniamin [5] e passando a ocupar, de fato, o papel de esposa de Iaacóv. Neste espaço de falta de informação e indefinições, há midrashim que a consideram como parte de seis matriarcas, associando inclusive, o número de bençãos na Amidá de Rosh haShaná, nove, à soma dos 3 patriarcas às 6 matriarcas.

Em tempos recentes, há sinagogas que, considerando que Bilá e Zilpá representam todos os segmentos da comunidade judaica que, ao longo dos séculos, foram invisibilizados e decidiram incoporá-las ao lado de Sará, Rivcá, Rachel e Leá. Assim, de forma simbólica, incorporam também pessoas que nunca se enxergaram nas figuras retratadas nas páginas do sidur. A imensa maioria das sinagogas, no entanto, mais apegadas a formulações mais tradicionais, continuam se referindo a apenas quatro matriarcas ou até apenas aos seus maridos.

Queridos formandos do Manhigut: que vocês sejam capazes de liderar uma comunidade judaica em que todos se encontrem representados, capazes de descobrir sua voz na dinâmica comunitária. Que a liderança de vocês possa ser um fator de crescimento e amadurecimento do mundo judaico e que sua participação judaica possa ajudar cada um de vocês a crescer e amadurecer.

Shabat Shalom!