sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Dvar Torá: De onde viemos? Para onde vamos? E de quem é o mérito?



Eu já disse aqui que há uma concentração de bom temas em algumas poucas parashiot da Torá: especialmente nos dois primeiros livros, Bereshit e Shemot, temos parashiot cheias de histórias, que facilitam o trabalho de escrever a prédica dada a quantidade de possibilidades. Daí entramos no deserto de Vaicrá e os incontáveis detalhes sobre os rituais de sacrifício, para desespero dos jovens Bnei-Mitsvá que precisam aprender sobre o que estão lendo e dos rabinos que precisam tirar água de pedra para escrever a prédica.

Os dois últimos livros, baMidbar e Devarim não são um terreno tão árido, mas estão longe de terem a enormidade de temas que tínhamos no começo do ciclo. Um pouco parecido com o cerrado, sem a exuberância da Mata Atlântica e sem a secura da catinga. Hoje eu estava escutando um podcast em que o jornalista falava do Deserto de Sonora, na fronteira entre o México e o Arizona, nos Estados Unidos, e das flores de todas as cores que ele encontrou, de forma inesperada, por lá. Neste nosso cerrado do livro de Devarim, na parashá desta semana, Ki Tavô, encontrei uma dessas flores inesperadas. Uma frase, que dá origem a inúmeras interpretações e a tratamentos em direções bastante distintas — tão diferentes que eu resolvi tratar de duas delas aqui com vocês.

A frase da Torá aparece logo no quinto verso da parashá. O texto está dizendo que quando os hebreus se estabelecerem na Terra de Israel, deve preparar uma cesta com primícias, levar até o local designado por Deus, entregar a cesta ao sacerdote, reconhecendo que está nesta terra porque Deus honrou a promessa que tinha feito a seus ancestrais e dizer: 

 וְעָנִיתָ וְאָמַרְתָּ לִפְנֵי  ה׳ אֱלֹהֶיךָ

 אֲרַמִּי אֹבֵד אָבִי וַיֵּרֶד מִצְרַיְמָה וַיָּגׇר שָׁם בִּמְתֵי מְעָט 

וַיְהִי־שָׁם לְגוֹי גָּדוֹל עָצוּם וָרָב׃

Você deve então recitar o seguinte diante de ה׳, seu Deus: 

“Meu pai era um arameu vagante. Ele desceu ao Egito com poucos números 

e ali peregrinou; mas lá ele se tornou uma grande e muito populosa nação.” [1]

O texto continua, com mais detalhes sobre como nossos antepassados foram oprimidos no Egito, mas Deus os tirou de lá, e os trouxe para a Terra de Israel, mas é nessa frase que eu quero focar.

“אֲרַמִּי אֹבֵד אָבִי”, “Meu pai era um arameu vagante” é uma frase que eu conhecia bem, que está na hagadá de Pessach. De acordo com a tradição que eu aprendi, quando fazemos as 4 perguntas do Má Nishtaná, “por que essa noite é diferente de todas as outras noites?”, dois sábios da Babilônia tiveram opiniões opostas — Shmuel acreditava que o Sêder de Pêssach celebrava nossa libertação física, política, de uma situação de opressão e, por isso, propunha que a resposta para o Má Nishtaná deveria ser “עֲבָדִים הָיִינו”, “nós fomos escravos”, enquanto Rav acreditava que a Sêder de Pêssach celebrava nossa libertação espiritual em relação à situação de paganismo em que nossos antepassados se encontravam e propunha que falássemos disso. “אֲרַמִּי אֹבֵד אָבִי” é um dos textos usados para isso. Quando lêmos essa passagem no Shacharit de 2a feira e eu me dei conta de como “אֲרַמִּי אֹבֵד אָבִי” era traduzido no Sidur Shavua Tov, levei um susto! “Laván, o arameu, quis fazer perecer o meu pai.” Depois, pesquisando um pouco mais me dei conta de que há uma longa tradição de questionar quem era arameu e que muitos comentaristas consideram, de fato, que era Laván. Mesmo assim, percebam a enorme diferença entre “Meu pai era um arameu vagante” e  “Laván, o arameu, quis fazer perecer o meu pai.” Não apenas o nome de Laván não aparece no texto em hebraico, mas a ênfase da tradução que eu apresentei parece ser a modéstia de reconhecer suas origens humildes, enquanto a ênfase da tradução que eu encontrei no sidur enfatiza um aspecto de perseguição, de se enxergar como vítima.

Há comentaristas famosos e reputados dos dois lados desse debate: apoiando a tradução que aparece no sidur (exceto pela inclusão do nome de Laván, que não se encontra, de forma alguma, no texto em hebraico, ainda que a referência ao arameu possa ser implicitamente a ele), estão Rashi e o Maharal de Praga; do outro lado do debate, Rashbam (o neto de Rashi), Even Ezra e Sforno.

A pergunta que este debate deixa, no entanto, é como lidamos com passagens da Torá que estejam em contradição com a forma como enxergamos a nós mesmos e nosso judaísmo em 5783. 

O rabino Lawrence Hoffman, um dos maiores especialistas em liturgia judaica no mundo liberal, diz que “os fiéis liberais enfrentaram esse dilema de uma maneira diferente dos tradicionalistas: como seus livros de rezas traziam rezas em tradução, de repente descobriram o que vinham dizendo há muitos anos, mas nunca tinham sabido. Os editores dos livros de rezas responderam com várias estratégias. (…) eles intencionalmente traduziram erroneamente os originais para evitar idéias com as quais os autores antigos não tinham problemas, mas que os congregantes modernos achavam horríveis”. [2]

Quando o texto fala que meu antepassado estava perdido espiritualmente, será que eu tenho a coragem de enfrentar quanta verdade há nessa afirmação — quanto eu mesmo, não apenas meu pai, ainda me encontro perdido — ou prefiro adotar uma tradução que amenize o tom do texto? Quando o texto da Torá pergunta “מי כמוך באלים ה׳?”, “quem é como Você entre os deuses, Adonai?”, será que eu consigo me perguntar a quais deuses eu continuo dando espaço na minha vida ou vou preferir traduzir o texto, como faz nosso sidur como “Quem é como Tu, entre os poderosos, ó Adonai?”.  Até que ponto retrojetamos nossa própria visão de mundo judaica sobre textos antigos sem, no entanto, termos a ousadia de alterar o hebraico ou quando reconhecemos que o que aquele texto diz não mais reflete o que acreditamos a lidamos com as consequências desse fato? Em duas semanas, em Rosh haShaná leremos histórias complicadas sobre nossos patriarcas, sobre a expulsão de um filho e o quase sacrifício de outro — será que teremos coragem de enfrentar essas histórias no seu âmago ou partiremos da premissa de que, se nossos patriarcas se comportaram desta forma, então eles deviam estar certos?!

Rashi viveu na França do século XI, indicando que essas questões não são recentes, mas elas continuam relevantes. O rabino Nilton Bonder, no seu livro “A Alma Imoral” menciona um ditado italiano que afirma “tradutore, traditore” — “tradutor, traidor”. Toda tradução envolve um trabalho que ressignificação de uma cultura para outra, mas que nesse processo não traiamos nem o texto original, nem as pessoas que dependem da tradução para entender o que está sendo dito.

A segunda questão levantada pela frase “אֲרַמִּי אֹבֵד אָבִי”, “Meu pai era um arameu vagante” tem a ver com o contexto no qual ela é dita e com o qual muitos imigrantes judeus que deram certo nesse país maravilhoso podem se identificar. Rashbam afirma que ao identificar o arameu vagante com meu pai, não um ancestral longíquo, mas meu pai, de quem eu descendo diretamente, dá relevância pessoal a esta afirmação a cada ano em que ela é repetida. Ao levarmos o fruto de nosso trabalho na cesta de primícias sendo oferecidas, reconhecemos que nosso sucesso não é apenas mérito nosso: é Deus quem transforma sementes em frutos, quem liberta os cativos. Na leitura de Rashbam, é como se cada pessoa afirmasse: “meus pais vieram de uma terra estranha, na qual eles eram escravos, para essa terra boa e próspera. Agora, como sinal de gratidão, eu trago estas primícias da terra para o Templo porque eu reconheço que esta fartura não é realização minha, mas eu desfruto dela pelo amor de Deus.”

Que diferença para a mentalidade de self-made-person, para quem todo sucesso é fruto exclusivo do seu talento e esforço e que se recusa a reconhecer a contribuição de qualquer outro fator.

Que nessas semanas finais de Elul possamos considerar de onde viemos e que fatores nos possibilitaram chegar até aqui. Que na reflexão desses dias possamos olhar com coragem e verdade para nossa tradição e para nossa conduta, honrar o que merece ser honrado, transformar o que precisa ser transformado.


 

[1] Deut. 26:5

[2] Hoffman, Lawrence A. “Prayers of Awe, Intuitions of Wonder”, Who by Fire, Who by Water: Un’taneh Tokef. Lawrence A. Hoffman (ed.), Woodstock, Vt: Jewish Lights Pub, 2010. pp. 4-12. 


quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Faz sentido perguntar “quantas esposas é demais”?!


Quando eu era criança, preciso reconhecer, eu cantava “Atirei o Pau no Gato” sem pensar muito no bem estar dos animais. Quem sabe, se o pau fosse atirado contra um cachorro, não contra um gato, eu teria mais empatia pela vítima da ação, mas como nunca fui lá muito fã dos felinos, nem me dava conta da violência da ação. Quando eu já era adolescente, comecei a escutar versões da música que, ao se proporem um papel educativo, trocavam a letra para dizer “não atire o pau no gato porque isso não se faz, o gatinho é nosso amigo, não devemos maltratar os animais.” Ao mesmo tempo em que cantávamos isso de forma ridicularizada, fazendo pouco caso da preocupação em trocar a letra de uma música infantil para não incentivar a violência contra os animais, eu me dava conta, pela primeira vez, que a letra original era, de fato, violenta e encorajava comportamentos indesejados.

Ao olharmos para o passado, é relativamente comum percebermos comportamentos inapropriados que aceitávamos como naturais e que hoje não são mais aceitáveis. Entramos no mês de Elul, o último do calendário judaico, no qual damos ênfase ao processo de Cheshbón haNéfesh, a contabilidade da alma, no qual olhamos com atenção para nossa ação no ano que passou, identificando onde fomos a pessoa que gostaríamos e onde nos afastamos deste ideal. É também uma oportunidade para expandirmos o olhar e percebermos quais condutas inadequadas continuam naturalizadas e que devem ser reavaliadas.

Na parashá desta semana, Shoftim, o povo recebe autorização para ter um rei depois de entrarem na Terra Prometida. O texto deixa claro que este líder seria um homem, ao mesmo tempo em que estabelece limites para o poder do monarca: ele deve ser israelita, não poderá acumular riqueza excessiva em outro, prata ou cavalos, não mandará seu povo de volta ao Egito e não terá muitas esposas. O texto não explicita quanto seria “muitas” mas parece haver um consenso de que até dezoito esposas seria aceitável; acima desse número, já seria um exagero.

Por muito tempo, os comentaristas desta passagem (homens, todos eles) [1] debateram se o número dezoito era exagerado ou não, se ele poderia ser ultrapassado se todas as mulheres fossem “boas”, se o limite se aplicaria também a uma pessoa que não fosse rei. Ninguém perguntou, no entanto, porque as esposas estavam listadas juntamente às demais riquezas que o rei podia acumular, ainda que com limites. Talvez a maior inovação que o judaísmo trouxe ao mundo foi a ideia de que todos os seres humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus e que, portanto, são dotados de dignidade inalienável. Será que as instruções ao rei que tratam suas esposas como propriedade refletem este profundo valor judaico?

Podemos encontrar exemplos semelhantes, nos quais as mulheres não foram tratadas com a devida dignidade em outras histórias da tradição judaica (o livro de Ester ou a história do rei Shlomô e suas 700 esposas, por exemplo) e de outras culturas, mas é chegado o momento de revisitarmos as condutas implicitamente aceitas nessas narrativas e apontarmos para o que não estamos mais dispostos a aceitar. Nos últimos anos, o movimento #metoo tem jogado luz para a forma como homens poderosos abusam de suas posições sociais e profissionais para praticar assédio e violência, práticas sobre as quais muitos sabiam mas que consideravam como “parte do jogo”.

Parashat Shoftim trata também da estruturação de um sistema judicial que torne a busca pela justiça uma característica central da sociedade hebreia. A este respeito, o rabino Eliezer Berkovits escreveu: “Buscar justiça é aliviar os oprimidos. Mas como os oprimidos serão aliviados, se não for julgando o opressor e esmagando sua capacidade de oprimir?! (…) A tolerância à injustiça é a tolerância ao sofrimento humano. Uma vez que os orgulhosos e poderosos que infligem o sofrimento geralmente não cedem à persuasão moral, a responsabilidade pelo sofredor exige que a justiça seja feita para que a opressão seja encerrada.” [2]

Que neste shabat, possamos buscar justiça para todos, em particular desafiando os abusos naturalizados dos poderosos e que assim comecemos o processo de nos transformarmos na versão de nós mesmos que queremos ser.

Rabino Rogério


[1] Veja, por exemplo, os comentário de Rashi, Ibn Ezra, Aderet Eliahu para Deut. 17:17.

[2] Conforme citado em Harvey Fields, “A Torah Commentary for Our Times”, vol. 3, p. 140. 

 


sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Dvar Torá: Escolhendo ter sempre bençãos (CIP)


Eu tenho uma amiga que se recusava terminantemente a comprar rifas. Ela acreditava que temos um número limitado de eventos de boa sorte na vida e não queria gastar os seus com prêmios de melhor valor. Ela dizia: “e seu eu ganhar?!”, gastei a chance de mudar de vida com um jogo de panelas… 

Talvez isso tenha acontecido comigo. Há algumas semanas eu ganhei, não uma, mas duas vezes na loteria. Na primeira vez, depois de todo o suspense de descobrir que minha aposta tinha sido sorteada, eu abri o aplicativo pra saber quanto eu tinha ganho, sonhando em ter me tornado milionário, para descobrir que o meu prêmio total era a fortuna de R$114,00. Alguns dias depois, eu estava mostrando para alguém essa história e descobri que tinha sido sorteado também no prêmio seguinte. Novos segundos de tensão, até eu descobrir que o segundo prêmio era de imensos R$30,00! Será que eu desperdicei minhas chances de ficar milionário?! Na dúvida, eu continuo jogando, mas só quando o prêmio está acumulado — nesta semana, a Mega Sena está acumulada em R$115 milhões — isso sim, mudaria a vida de qualquer um!

Mas mudaria de que forma? Será que necessariamente boa?! No ano passado, um ganhador de quase R$50 milhões da Mega Sena, que continuava com sua sua vida pacata em Hortolândia foi assassinado por pessoas que queriam seu dinheiro. Não são raras as histórias de pessoas que ficam milionárias da noite para o dia e que, na sequência, perdem o dinheiro em pouco tempo [1]. Há a história do casal americano que torrou US$13 milhões em 15 anos ou do brasileiro que acabou com R$30 milhões em 5 anos. Mas além do risco de perder fácil o dinheiro que chegou fácil, será que  estes milhões trazem a felicidade que as pessoas esperam?

De outro lado, há notícias terríveis que recebemos ao longo da vida, em situações pessoais e profissionais e que, diferentemente do que esperávamos à primeira vista, acabam se tornando bençãos que estavam disfarçadas de maldições. Uma separação amorosa, que parecia que te levaria pro fundo do poço foi o que permitiu que você se descobrisse enquanto indivíduo, que se estruturasse de formas muito mais saudáveis dali pra frente. O mesmo com relações profissionais, uma promoção perdida, uma demissão. Situações que, em um primeiro momento, pareciam muito ruins mas que abriram novas possibilidades que você nem enxergaria se tudo “tivesse dado certo”.

Às vezes, o que parecia uma benção se revela uma maldição; e às vezes, o que parecia uma maldição nos enche de bençãos. Na nossa parashá desta semana, Deus diz ao povo, através de Moshé:


רְאֵה אָנֹכִי נֹתֵן לִפְנֵיכֶם הַיּוֹם בְּרָכָה וּקְלָלָה׃ 

אֶת־הַבְּרָכָה אֲשֶׁר תִּשְׁמְעוּ אֶל־מִצְוֹת ה׳ אֱלֹהֵיכֶם 

אֲשֶׁר אָנֹכִי מְצַוֶּה אֶתְכֶם הַיּוֹם׃ 

וְהַקְּלָלָה אִם־לֹא תִשְׁמְעוּ אֶל־מִצְוֹת ה׳ אֱלֹהֵיכֶם

 וְסַרְתֶּם מִן־הַדֶּרֶךְ אֲשֶׁר אָנֹכִי מְצַוֶּה אֶתְכֶם הַיּוֹם 

לָלֶכֶת אַחֲרֵי אֱלֹהִים אֲחֵרִים אֲשֶׁר לֹא־יְדַעְתֶּם׃ 

Veja, neste dia eu coloco diante de vocês bênção e maldição:  

bênção, ao escutarem aos mandamentos 

de ה׳, teu Deus, que Eu te ordeno hoje;

e maldição, se vocês não escutarem aos mandamentos 

de ה׳, teu Deus, se desviando do caminho que Eu te ordeno hoje,

indo atrás de outros deuses que vocês não conhecem. [2]:


Dito assim, até parece fácil reconhecer qual é a benção e qual é a maldição,  e que comportamento ter nos grandes dilemas à nossa frente mas os comentaristas ao longo dos séculos gastaram muita tinta tentando explicar esses três versículos. 

Destes, um dos que eu mais gostei, vindo do mestre Chassídico Tsvi Hirsch de Nadvorna, na Ucrânia, que viveu na segunda metade do século 18. Na sua leitura do trecho “benção, ao escutarem os mandamentos de ה׳, teu Deus”, “escutar” deve ser entendido como “se integrar”, “se tornar um”, estabelecendo um paralelo com uma passagem talmúdica em que uma palavra da mesma raiz ganha até um significado sexual, de se tornar um. Portanto, a passagem deveria ser lida assim:

Veja, neste dia eu coloco diante de vocês bênção e maldição: 

bênção, se vocês unirem seu comportamento ao que vem de Deus, 

tornando o que você dá e o que você recebe um fluxo único; 

maldição se vocês não fizerem isso. 

A forma como recebemos nossas bençãos e maldições determinam o impacto que elas terão nas nossas vida. Um tropeço pode nos ensinar a revisitar nossa arrogância e desenvolver nossa empatia, ou pode nos tornar amargurados e rancorosos. Um grande sucesso, por outro lado, pode fazer com esqueçamos de tudo que ainda precisamos evoluir e de todas as pessoas que nos ajudaram ao longo do caminho e que não receberam ainda o reconhecimento devido, ou pode ser a ferramenta da qual precisávamos para ajudar outros a ter o mesmo sucesso que tivemos.

Na teologia do livro de Deuteronômio, as consequências das nossas ações não são individuais, mas se aplicam a toda a sociedade. Quando, como sociedade, passamos a buscar outros deuses — e aqueles que buscamos hoje em dia não fazem parte do universo teológico, mas se expressam como fama, poder e dinheiro — ou, ainda pior, quando passamos a considerar a nós mesmos como semi-deuses, a Torá nos alerta que as consequências serão as terríveis, as piores maldições possíveis. O que parecia um evento positivo se revelará como um desastre, perderemos nossa humanidade na busca do conforto, afogados pelas novas tecnologias.

Se, por outro lado, formos capazes de integrar nossa conduta social aos valores que a Torá nos ensina, como amar ao nosso próximo como a nós mesmos, proteger os segmentos mais vulneráveis das nossas sociedades, agir com retidão e justiça, então mesmo o que parece uma notícia ruim se revelará uma benção, poderemos andar pelas nossas cidades sem medo, reconheceremos a face do Divino nos saudando a cada pessoa que encontrarmos, não importando quão diferente ela for de nós.

Veja, neste dia eu coloco diante de vocês bênção e maldição.

É só escolher!

Shabat Shalom!

 

[1] https://einvestidor.estadao.com.br/comportamento/ganhadores-loteria-que-perderam-tudo/

[2] Num. 12:26-28

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Dando vida às partes mortas de nós mesmos

(originalmente publicado em https://indd.adobe.com/embed/c46e5aff-75fa-470d-bb34-6aea8363aa38)

Nos últimos anos, nas cerimônias de Izcór que eu conduzi, eu tenho lido um artigo lindo da Eliane Brum[1] em que ela diz que o nosso mundo morre antes da gente e que, nesse processo, parte de quem somos vai embora também. A verdade é que morremos em parte com cada pessoa querida que nos deixa, perdemos memórias e sonhos.

Para alguns de nós, perdemos aqueles que mais nos conheciam intimamente, com quem compartilhamos os melhores e os mais difíceis momentos de nossas vidas e cujo olhar carinhoso era suficiente para nos sentirmos bem em qualquer situação. Em outros casos, perdemos aqueles que conheciam nossas histórias e as validavam, que compartilhavam experiências comuns, lugares, brincadeiras e códigos de comunicação que ninguém mais entendia. Assim, com sua partida, se foi também parte do nosso passado.

Mas há também as situações em que sentimos que perdemos o potencial do futuro quando pessoas centrais em nossas vidas falecem. Não raras vezes fomos obrigados a abrir mão do sonho de que nossos filhos e netos pudessem conviver por muito tempo com pessoas que foram de profundo impacto nas nossas vidas. Tivemos que lidar com a realidade de que não envelheceríamos ao lado de quem sonhamos ou de que passos importantes das nossas vidas teríamos que dar sozinhos, sem termos aqueles que perdemos ao nosso lado para nos incentivar e fortalecer.

Na segunda benção da Amidá, agradecemos a Deus por “dar vida aos mortos”, uma frase que tem intrigado rabinos há gerações e gerado várias direções de interpretação e formulações alternativas. Há quem a tenha substituído por uma fórmula que  agradece a Deus “por dar vida a tudo que tem vida” e quem literalmente acredite em um momento apocalíptico em que os mortos ressuscitarão e entre essas posições, há muitas abordagens metafóricas que tentam explicar de que forma podemos entender a expressão “dar vida aos mortos”.

No serviço de Izcór, ao relembrar de pessoas queridas que faleceram, tentamos mantê-los conectados à corrente da vida, através de nossas memórias e das condutas e valores que aprendemos deles. Buscamos também ressuscitar as partes de nós mesmos que morreram com eles, honrando o papel que as pessoas de quem nos lembramos hoje tiveram em nos tornar quem somos e a chegar onde chegamos. Assim, retomamos nossa relação com nosso próprio passado, suas histórias, lugares, cheiros, sons e experiências, ao mesmo tempo em que conseguimos voltar a sonhar com novas experiências que criaremos daqui para frente. É assim que melhor honramos a memória daqueles que partiram.

Shaná Tová uMetucá!

Que seja um ano doce e cheio de novas memórias!


[1] https://bit.ly/3sl4M1Q


segunda-feira, 31 de julho de 2023

Tu b'Av (2023) - Fascículo da UJR


O rabino Nehemia Polen, com quem eu tive a honra de estudar, nos ensinava que os sacrifícios oferecidos no Templo podiam ser comparados às flores ou outros presentes que casais dão um ao outro com frequência: há flores para pedir desculpas por alguma mancada, há flores para uma ocasião especial e há flores para dizer simplesmente “pensei em você durante o dia e quis te fazer um agrado.” Em nossas vidas amorosas, temos momentos especiais que queremos eternizar e relembrar com frequência, há momentos em que falhamos e para os quais buscamos caminhos de correção – mas para a maioria dos casais, na maior parte do tempo estamos envolvidos no esforço de manter o fogo aceso, o companheirismo ativo, o olhar e a escuta atentos para enxergar e ouvir o outro e apoiá-lo onde estiver. 


Assim como nas nossas relações românticas, também a relação do povo judeu teve momentos de êxtase, como a entrega da Torá no Monte Sinait e momentos de profunda crise, como a adoração do Bezerro de Ouro ou a falta de fé do povo que seguiu a opinião pessimista da maioria dos escoteiros enviados para investigar a Terra de Israel. Para relembrarmos estes eventos mais dramáticos, temos celebrações (como Shavuot) e datas de tom mais soturno (como 17 de Tamuz e Tishá b’Av), dependendo da natureza do evento que buscamos reviver. Na maior parte dos dias, no entanto, buscamos manter acesa a chama do nosso relacionamento com o Divino, qualquer que seja a forma que cada um de nós a sente e define. Parte da forma como a liturgia faz isso, é falando de amor, pelo menos quatro vezes ao dia: de manhã, rezamos Ahavá Rabá (“Amor imenso”) e à noite, Ahavat Olam (“Amor eterno”), antes do Sh’má Israel. Ambos falam do amor que Deus nutre por nós. Imediatamente após o Sh’má, dizemos o veAhavtá, na qual discorremos sobre o amor que nós sentimos por Deus. Amor profundo, mútuo e reafirmado constantemente.

 

No entanto, quem já esteve em uma briga mais séria sabe que nessas situações, a mágoa se estabelece e, por algum tempo, é necessária paciência para esperar ela passar. De acordo com um midrash, após o episódio no qual dez dos doze escoteiros enviados para investigar a terra de Israel voltaram com narrativas pessimistas e convenceram o povo de que não conseguiriam conquistar a terra prometida[1], Deus teria ficado tão magoado com o episódio que teria parado de falar com Moshé e que esta interrupção na comunicação se manteria até que toda aquela geração tivesse falecido[2]. Foi em um dia 15 de Av (Tu b’Av) que o diálogo entre Deus e Moshé se restabeleceu, indicando a todos que as mortes haviam terminado e que todos aqueles que continuavam vivos poderiam entrar na terra de Israel. Desde então a data de Tu b’Av teria sido estabelecida como uma data feliz no calendário, aquela em que nos relembramos do momento em que conseguimos superar uma das maiores crises no relacionamento do povo judeu com Deus.

 

Desde então, Tu b’Av se tornou a data do calendário judaico que fala do amor. Para ser sincero, apesar de a Mishná afirmar que este dia é, junto com Iom Kipur, um dos dois mais felizes do calendário judaico[3], é uma daquelas datas comemorativas para as quais nem sempre damos atenção, para as quais encontramos poucas referências e não sabemos bem como comemorar.

 

Vivemos em tempos em que a fluidez conceitual passou a definir nosso modo de vida e no qual as palavras ganharam tantas interpretações distintas, que muitas vezes é difícil saber se estamos todos falando das mesmas coisas. Neste contexto, “amor” é paradoxalmente um termo que todos temos certeza que entendemos o que ele significa e que não sabemos se a nossa compreensão é a mesma da das outras pessoas. Tu b’Av é uma excelente oportunidade de festejarmos o amor e também falarmos sobre ele, expandirmos nossos conceitos e entendermos o ponto de vista de quem pensa diferente. 

 

Estamos também na reta final para Rosh haShaná e Iom Kipur, a duas semanas do início de Elul, o último mês do calendário judaico, tradicionalmente dedicado ao processo de cheshbon nefesh, a “contabilidade da alma” na qual avaliamos nossa conduta no ano que chega ao fim. Tu b’Av é uma oportunidade de começarmos cedo neste processo, nos perguntando quais são os relacionamentos com os quais realmente nos importamos e nos quais passamos por uma crise, para buscarmos o reencontro que o primeiro Tu b’Av significou.

 

Que este Tu b’Av seja uma oportunidade de transformação, de encontros e reencontros, de descobertas e de ampliação do que já era conhecido!

 

Chag haAhavá Sameach! Feliz festa do amor!

 



[1] . Num. 13-14

[2] . Talmud Bavli Taanit 30a

[3] . Mishná Taanit 4:8

sexta-feira, 21 de julho de 2023

Dvar Torá: Uma comunidade em permanente transformação




Pra quem não se deu conta ainda, nós estamos na contagem regressiva para Rosh haShaná e Iom Kipur: na quarta feira, entramos no mês de Av, o penúltimo do calendário judaico. 

Por isso, estamos por aqui preparando o calendário de 5784, aquele que os sócios recebem quando um novo ano judaico começa. No processo de revisão esta semana, me dei conta com algumas datas que tem tanta informação que ela quase não cabe naquela caixinha da grade do calendário. 26 de Kislev de 5784, por exemplo, que corresponde ao dia 09 de dezembro de 2023, tem, além da data judaica e civil, também as seguintes informações: horário de acendimento das velas de Chanucá, a parashá daquele shabat, Vaishêv, o fato de que é o último shabat do mês judaico, que se chama “shabat mevarchim”, o segundo dia de Chanucá e que acendemos a 3ª velas de Chanucá ao entardecer daquele dia. Nas longas conversas entre os revisores, a dúvida sobre a hierarquia de todas essas informações era repetida a cada vez que a célula de uma data ia ficando cheia…

16 de julho de 2013 não foi, para a maioria das pessoas, uma dessas datas cheias de acontecimentos, mas na minha agenda pessoal, foi uma célula que estava extravasando. Era meu aniversário, que eu passei em jejum porque também era Tishá b’Av, a data do calendário judaico que marca as grandes tragédias da nossa história e também foi o dia em que minha família e eu voltamos a viver no Brasil, depois de oito ano estudando e trabalhando nos Estados Unidos. Neste último domingo, completamos dez anos desse processo. 

Minha família e eu tomamos a decisão de voltarmos ao Brasil em maio de 2013 e chegamos aqui em julho daquele ano. Entre esses dois meses, é óbvio, está junho de 2013, aquele mês nos quais as manifestações contra o aumento no preço das passagens de ônibus levaram milhares de pessoas às ruas, depois ainda mais gente foi para protestar contra a repressão policial das primeiras manifestações e, então, as pessoas nem sabiam mais os motivos das manifestações, mas cada vez mais gente saía às ruas para protestar por razões difusas. Decidimos voltar para um país e, dois meses depois, chegamos a um lugar completamente diferente.

No mês passado,  tivemos lançamentos de livros, inúmeros especiais na imprensa escrita e nos podcasts que eu escuto trataram dos impactos dessas manifestações e da década que as seguiu. O Brasil de 2023 é, simultaneamente resultado dos processos desencadeados 10 anos antes e radicalmente diferente da nação que existia então e vamos passar as próximas décadas entendendo todas as formas como esses dois Brasis são resultado um do outro e iguais ou diferentes um do outro. Infelizmente, nenhuma destas retrospectivas tratou destes dez anos para mim e das profundas reviravoltas que aconteceram na minha vida. 

Nesta semana começamos a ler o quinto livro da Torá, Devarim ou Deuteronômio. Esse livro narra os momentos finais da longa jornada de 40 anos dos israelitas pelo deserto, uma travessia que os levou da dor da opressão à alegria da chegada à Terra Prometida, mas que também teve sua parcela de dores e de angústias, na qual toda uma geração pereceu para permitir que uma nova mentalidade determinasse o futuro do povo hebreu na sua própria terra. Ao longo das próximas semanas, escutaremos como Moshé revisita os principais episódios desses 40 anos vagando, incluindo a entrega da Torá, as crises do Bezerro de Ouro e dos Doze Escoteiros.

Se alguns argumentariam contra o egocentrismo do rabino de usar a prédica para revisar os últimos dez anos da sua vida (e outros adorariam as fofocas que fariam parte dessa revisão), eu queria aproveitar a prédica de hoje e pensar em como essa comunidade se transformou na última década, outro aspecto que passou batido nas retrospectivas que eu vi até agora.

Deixa eu começar com dois avisos iniciais: Primeiro: amanhã, dia 22, eu completo exatamente 4 anos e meio de CIP, então ainda que eu tenha sido parte do processo de transformação do que eu vou falar, são processos que vêm se desenvolvendo ao longo de uma década, muitos deles ocorridos bem antes da minha chegada a esta casa. Segundo: o processo de transformação da CIP é permanente, sempre foi. Nenhuma comunidade chega aos 87 anos exatamente da mesma forma que foi fundada, mas a CIP tem a mudança no seu DNA, é parte da identidade de quem somos. Eu poderia dizer que o Judaísmo tem a mudança como parte do seu DNA por sempre ter estado em diálogo com o mundo que o cerca e que o Judaísmo Liberal, que busca ainda mais a parceria com a sociedade mais ampla, acentua este aspecto de evolução constante. A CIP chegou a 2013 muito diferente do que ela era em 2003, mas como todo o resto do contexto à nossa volta, as mudanças se aceleraram nos últimos dez anos.

No final de 2008, quase cinco anos antes do período em que eu vou me focar, eu vim para a CIP, com a minha filha de alguns meses amarrada com um tecido ao meu peito. Quando um membro da Comissão de Culto me convidou para uma aliá, ele me disse: “aproveita, porque esta é a última chance que ela tem de subir à Bimá”. Hoje minha filha completa 15 anos e eu tenho um orgulho enorme de dizer que nessa comunidade meninas e mulheres não são apenas convidadas a subirem à Torá mas são fortemente encorajadas a fazê-lo.

Poucos meses depois de chegar ao Brasil em 2013, um diretor voluntário da escola  judaica em que eu trabalhava, um pouco incomodado com uma visão igualitária de Judaísmo, me abordou e disse: “é fácil, Rogério. Nós seguimos a linha da CIP — se pode fazer lá, pode fazer aqui.” Pouco tempo depois dessa conversa, a CIP contratou a rabina Deby Greenberg e eu o provoquei: “agora vamos contratar uma rabina também?”. “Não”, ele me respondeu. “Nosso judaísmo é o da CIP de 6 meses atrás.” 

Muitos de vocês devem se lembrar de quando homens e mulheres se sentavam separados aqui na CIP. A prática foi sendo abandonada aos poucos, de forma gradativa, mas até poucos anos ela continuava em Rosh haShaná e Iom Kipur aqui na Antonio Carlos, prática que foi abnadandonada por pressão de famílias que queriam se sentar juntas também nas Grandes Festas.

O programa de educação adulta da CIP de hoje não podia ser sonhado há dez anos — o curso de Introdução ao Judaísmo foi completamente reformulado, com a abordagem simultaneamente comprometida e crítica que caracteriza o judaísmo CIPiano. A Academia Judaica substituiu as poucas aulas semanais que tínhamos para adultos por dezenas de cursos oferecidos nos últimos anos. 

O Shabat do orgulho, que aconteceu aqui na CIP no mês passado, foi o resultado de um processo que se desenvolveu ao longo de vários anos e que busca ampliar nosso olhar para reconhecer todos os membros da nossa comunidade e acolher cada pessoa como ela é, sem pré-condições — pelo contrário, revisitando nossos preconceitos e garantindo que todos se sintam plenamente.

A musicalidade dos nossos serviços religiosos nos inspira cada vez mais. O Cabalat Shabat consegue se transformar continuamente e continuar sendo a experiência bem sucedida que é, e se você não participou recentemente do nosso Shacharit de Shabat, quero te convidar a vir e vivenciar como ele se transformou.  

Assim como a travessia dos israelitas pelo deserto teve sua dose de dores e desafios, as transformações pelas quais a CIP passou nos últimos dez anos tampouco foram sempre tranquilas. Há segmentos comunitários importantes que se incomodaram com as novas diretrizes. Há outros segmentos que acharam que as mudanças não aconteceram na velocidade que os temas demandavam. Todos eles têm razão. Mudanças são sempre difíceis, em particular em espaços que nos trazem um senso de pertencimento pelo vínculo eterno à tradição. Por outro lado, a paciência, eu gosto de dizer, é uma prerrogativa dos opressores. Difícil pedir a alguém que não se sente reconhecido como indivíduo que aguente esta situação por mais algum tempo, até que as condições comunitárias sejam mais propícias.

E, mesmo assim.… E apesar de dois anos muito difíceis pela pandemia, chegamos a 2023 muito mais fortes do que estávamos em 2013 — uma comunidade mais aberta, mais diversa, mais acolhedora, mais instruída, com mais espiritualidade e oportunidades para todos. 

Que possamos ir de força a força e chegar ainda mais fortes a 2033.

Shabat Shalom!


quinta-feira, 13 de julho de 2023

Ativismo judicial em tempos talmúdicos

Há épocas em que nos acostumamos a ver nas páginas dos jornais termos técnicos profissionais que, em outras situações, a maioria de nós nunca sonharia em conhecer. Foi assim que, durante os anos da pandemia, nos tornamos experts nos diversos tipos de exame para detecção do vírus, de tecnologias de vacinas, e por aí vai… Nas últimas décadas, mesmo quem não é advogado, tem se acostumado com debates sobre o “ativismo judicial”. Esta conversa, que, entre outros países, tem acontecido com intensidade com relação aos tribunais superiores dos Estados Unidos e do Brasil (STF, STJ, TSE), ganhou maior intensidade nos últimos meses devido a um polêmico projeto do governo de Israel, que busca regulamentar a questão. 

Mas, afinal, do que estamos falando? Eli Salzberger, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Haifa, nota que há dois tipos de ativismos judiciais. O primeiro se relaciona com a latitude que juízes têm para interpretar a legislação ou para divergir da jurisprudência adotada. O segundo tipo de ativismo judicial tem a ver com a inter-relação entre os poderes “focando no papel dos tribunais em moldarem tomadas de decisões coletivas na sociedade, relativamente ao papel dos outros Poderes do governo — o Legislativo e o Executivo, e em relaçção à opinião pública.” [1]

Em geral, a crítica do ativismo judicial foca no fato de um grupo de juízes não-eleitos interferir nas políticas públicas determinadas por assembléias legislativas ou por governantes, ambos eleitos. Em sua defesa, argumenta-se que a defesa de certos valores sociais fundamentais não podem ficar à mercê da volatilidade da opinião pública a cada ciclo eleitoral — nessas situações, quando se coloca em risco o respeito aos Direitos Humanos ou à Democracia, os tribunais superiores precisam intervir na defesa destes valores. 

O professor Salzberger diz que “o sistema judicial israelense é apresentado, tanto por acadêmicos israelenses quanto não-israelenses como um dos mais ativistas do mundo, mas também um de alta qualidade.” Como evidência da última afirmação, ele cita um alto membro do sistema judicial britânico, que teria afirmado que “a Suprema Corte israelense é uma das melhores cortes que ele conhece em todo o mundo”.

O desenvolvimento das interpretações e das implicações legais a respeito de um trecho da parashá dupla desta semana, Matot-Massei, pode nos dar uma figura das remotas origens do ativismo judicial na tradição judaica. Para entendermos a questão em jogo, precisamos retornar para a leitura da Torá da semana passada, parashát Pinchás. Lá, um homem hebreu (Tselofchád) morre deixando cinco filhas. Pelas regras vigentes na época, como ele não tinha filhos homens, sua herança seria perdida pela família. [2] As filhas de Tselofchád questionam Moshé sobre a justiça desta regra; Moshé leva o questionamento a Deus, que decide que as filhas têm razão e que, dali em diante, quando não houverem filhos homens, as filhas receberão a herança de seu pai. Assim terminou a história na semana passada.

No entanto, há uma reviravolta na história na leitura desta semana. Um grupo de israelitas da mesma tribo que Tselofchád abordou Moshé reclamando da decisão que havia sido tomada com relação às filhas de Tselofchád. Eles argumentavam que, se elas se casassem fora de sua tribo, a propriedade seria transferida para a tribo de seu marido, gerando uma perda coletiva para a tribo original. Novamente, Moshé leva a questão a Deus, que dá razão aos membros da tribo, estabelecendo que mulheres que recebessem herança de seus pais apenas poderiam se casar com membros da própria tribo. [3] 

Ainda que a primeira decisão com relação a mulheres poderem receber herança de seus pais vá na direção de um tratamento legal mais igualitário entre homens e mulheres, fica claro que é um passo bastante tímido, não chegando nem perto de estabelecer uma igualdade de fato. Pior ainda, ao estabelecer restrições para com quem estas mulheres herdeiras podem casar, a segunda decisão caminha na direção contrária à igualdade.

Por um motivo ou por outro, os Rabinos do Talmud decidiram que esta lei bíblica não poderia ser cumprida da forma como ela estava escrita. No entanto, como é tradicional do discurso rabínico, os Sábios não contrariaram a regra diretamente em seu aspecto ético. A prática rabínica clássica é implementar profundas revoluções através de narrativas de continuidade, e aqui não foi diferente. Em uma longa troca de opiniões registrada no Talmud Bavli, os Rabinos estabelecem (1) que a regra se aplicaria apenas à geração das filhas de Tselofchád, não depois disso; e (2) as filhas de Tselofchád estariam isentas de cumprirem a regra e poderiam casar com pessoas de qualquer tribo! [4]

Desde os tempos talmúdicos, a tradição rabínica tem “reinterpretado” inúmeras regras bíblicas, estabelecendo mudanças interpretativas importantes, ainda que caracterizando-as como continuação do que sempre houve. Em particular, estas atitudes foram tomadas para salvaguardar a dignidade humana. 

Que todas as instâncias da nossa sociedade possam agir da mesma forma e proteger a dignidade humana: seja através de legislação, de políticas públicas ou da interpretação ativa da lei — que possamos rejeitar mudanças que caminhem na direção contrária, parta ela de onde partir.

Shabat Shalom!


[1] Eli M Salzberger, “Judicial Activism in Israel” (2003), p. 2. 

[2] Num. 27:1-11

[3] Num. 36:1-12

[4] Talmud Bavli Bava Batra 120a-120b