sexta-feira, 20 de março de 2020
Dvar Torá: Percebendo a generosidade ao nosso redor (CIP)
quinta-feira, 19 de março de 2020
De Purim a Pessach: Proteção e Vingança em Diálogo no Calendário Judaico (ou os riscos do 'perseguido' se transformar em 'perseguidor')
quarta-feira, 18 de março de 2020
Pêssach - Fascículo da UJR
(texto originalmente publicado em https://ujr-amlat.org/wp-content/uploads/2020/10/pessach_2020_port01.pdf)
A origem da comemoração de Pessach
Com a lua cheia, em 15 de Adar, o primeiro mês do ano na contagem bíblica, os hebreus, que haviam permanecido em Mitsrayim por mais de quatro séculos, foram libertados. A noite anterior tinha sido passada em apreensão: um cordeiro deveria ser sacrificado, seu sangue usado nos batentes das portas para indicar as casas dos hebreus que seriam poupadas da última praga, a morte dos primogênitos; a carne do cordeiro assada e consumida por cada família com matsá e ervas amargas; o cinto apertado, sandálias nos pés, cajado na mão, prontos para partirem; tudo devia ser consumido de forma apressada,. É assim que a Torá relata o primeiro Pessach[1], que na tradição passou a ser chamado de Pessach Mitsrayim, a noite em que os hebreus foram libertados.
Os versos seguintes a este relato apresentam também a forma como Pessach deveria ser comemorado dali para frente (o que na tradição passou a ser chamado Pessach haDorot): com matsot e sem o consumo de chamêts por sete dias[2]. Quando o povo entrasse na Terra de Israel e a experiência da servidão fosse apenas uma memória, seus filhos lhes perguntariam o motivo deste ritual - e os hebreus deveriam explicar a seus filhos que era para lembrar-se da forma como Deus os havia redimido da opressão em Mitsrayim. Esta idéia, de que os pais devem explicar a seus filhos sobre a saída de Mitsrayim, é repetida quatro vezes na Torá[3], deu origem ao Seder de Pessach (uma forma estruturada de explicar o motivo da festa) e a algumas das tradições relacionadas ao número quatro (como as quatro crianças da hagadá, por exemplo).
A comemoração de Pessach nos nossos dias
De acordo com a tradição, não apenas nos lembramos da saída de Mitsarayim em Pessach, mas revivemos aquele momento: em cada geração, toda pessoa é obrigada a ver a si mesma como se ela tivesse sido pessoalmente libertada[4]. O Seder de Pessach é nossa forma de reviver e explicar, de ir da opressão à redenção, de ligar nossa libertação no passado com os desafios que enfrentamos no presente e de expressar nossa esperança de que alcancemos sua solução também em nossas vidas: ba shaná ha-baá biYerushalayim.
O rabino e filósofo israelense, Donniel Hartman, presidente do Instituto Hartman, renomado Instituto de Estudos Judaicos em Jerusalém, defende que há mais de uma história sobre o Êxodo que pode ser contada em Pessach[5]. Uma versão da história relata um episódio de redenção do povo judeu devido à nossa relação com Deus, que não pôde ficar passivo quando Seus filhos estavam sendo oprimidos. É uma perspectiva em que a experiência do Êxodo é particular e tem pouco a ensinar sobre outros episódios de opressão nos quais o povo judeu não esteja envolvido. Uma outra versão da história trata de um processo de Libertação conduzido porque Deus odeia a opressão, independentemente das partes envolvidas. O Rabino Hartman lembra que estas duas perspectivas foram contempladas no texto da hagadá, mas que nem sempre recebem o mesmo destaque na forma como contamos a história – e nos desafia a considerar qual mensagem de Pessach queremos privilegiar em nossos sedarim.
A tensão entre o foco na servidão e subsequente libertação dos hebreus ou nas opressões contemporâneas tem definido, em grande parte, a forma como o ritual se desenvolveu no último século. Por uma narrativa mais contemporânea e inclusiva, estão sedarim nos quais a opressão das mulheres, dos refugiados, dos LGBTQ+, dos negros, ocupam lugar central como expressão contemporânea do sofrimento pelo qual os hebreus passaram em Mitsrayim. A criação de hagadot feministas, por exemplo, é extensa e remonta há quase cinco décadas. Nestes textos, é destacado o papel das mulheres na redenção dos hebreus: Iocheved, a mãe de Moshé que teve a coragem de ter um filho apesar das restrições impostas pelo faraó; Miriam, a irmã que acompanhou a cesta em que Moshé estava e ofereceu ajuda à filha do faraó; Bat-Ia, a filha do faraó, que tendo encontrado um bebê hebreu nas águas do rio, contrariou as ordens de seu pai e salvou-o; Shifra e Puá, as parteiras egípcias que se negaram a seguir as ordens do faraó para matar os meninos hebreus porque eram “tementes a Deus.” Numa adição ao ritual de Pessach que tornou-se bastante comum mesmo fora dos sedarimfeministas, uma laranja foi adicionada à keará, o prato com alimentos simbólicos colocado no centro da mesa. De acordo com Susannah Heschel, a autora desta ideia, “eu escolhi a laranja porque ela sugere como pode ser frutífero para todos os judeus quando lésbicas e homens gays são membros ativos e contribuem para a vida judaica.”[6]
Outra adições recentes à keará incluem azeitonas (em lembrança ao conflito entre israelenses e palestinos, a importância que campos de oliveiras têm para as duas culturas e o sinal de paz e tranquilidade que um ramo de oliveira trazido por uma pomba representou para Noach[7]) e produtos agrícolas nos quais as práticas de produção contemporâneas possam incluir o trabalho em condições similares à escravidão (como cana de açúcar, avelã, cacau e tomate). Em contextos reformistas, cada família e cada comunidade são convidadas a buscar como expressar, de forma ritual, sua preocupação com as questões contemporâneas que envolvam a opressão de grupos ou comunidades.
Algumas perguntas para você pensar….
Pessach é conhecida como a festa em que as perguntas são encorajadas. No entanto, algumas perguntas da hagadá são ritualizadas, focadas em tecnicalidades da observância do feriado. Que outras perguntas você gostaria de trazer para o seu seder este ano? Que conversas sobre a Opressão e sobre a Liberdade você gostaria de estabelecer com seus amigos e familiares?
Aqui vão algumas ideias:
• No Chassidismo, a abstinência de chametz é entendida como uma metáfora para o trabalho espiritual de desinflar nossos egos “inflados”. Tomando esta ideia como ponto de partida, como podemos usar as discussões do seder para melhorar nossa interação com o mundo?
• Conforme mencionado acima, Donniel Hartman nos desafia a considerar o equilíbrio entre o particular e o universal na história que contamos em nossos sedarim. Em sua opinião, qual deve ser a ênfase das conversas ao redor da mesa de Pessach: a libertação dos hebreus do Egito ou a luta contra a opressão nos nossos dias?
• No tempo dos hebreus, os dez “golpes” (normalmente traduzidos como “pragas”) foram a forma que Deus encontrou para forçar o faraó a libertar os hebreus da servidão. De que ferramentas dispomos hoje em dia para agir em defesa dos valores representados por Pessach?
• Muitas vezes, a tradição judaica estabelece que, quando atingirmos uma posição de poder, nosso papel será distinto daquele que era até então, nos obrigando a agirmos com mais ênfase na defesa dos segmentos mais vulneráveis da sociedade (a linguagem utilizada, normalmente, faz referência às viúvas, aos órfãos e aos estrangeiros). De que maneira a criação do Estado de Israel mudou a responsabilidade que judeus têm de agirem pelo fim da opressão nos lugares em que se encontram?
[1] . Ex. 12:1-13
[2] . Ex. 12:14-20
[3] Ex. 12:25-27; Ex. 13:14-16, Ex. 13: 5-8, Deut. 6:20-25.
[4] . Mishná Pesachim 10:5
[5] . http://blogs.timesofisrael.com/pesach-a-tale-of-two-stories/
[6] . Heschel, Susannah. “Orange on the Seder Plate.” in The Women’s Passover Companion: Women’s Reflections on the Festival of Freedom. Rabbi Sharon Cohen Anisfeld, Tara Mohr and Catherine Spector (eds.). Woodstock, VE: Jewish Lights. 2003. pp. 70-77.
[7] . Gen. 8:11.
sexta-feira, 6 de março de 2020
Sendo responsáveis pelo que lembramos e pelo que esquecemos
O que escolhemos lembrar e do que escolhemos nos esquecer? Em particular, ao pensarmos na história judaica: nos lembramos dos momentos em que, vulneráveis, fomos massacrados ou daqueles em que, detendo o poder, tivemos a obrigação de apresentarmos um comportamento exemplar, incluindo a proteção aos segmentos mais fragilizados das nossas sociedades?
Esse debate está presente também em muitos comentários para as primeiras linhas da parashá desta semana: “instrua os israelitas a trazerem óleo claro de azeitonas batidas para iluminação, para acender uma ner tamid (chama eterna)”. Muitos foram os comentaristas que interpretaram que o “óleo claro de azeitonas batidas” é uma referência ao sofrimento judaico ao redor dos séculos e os múltiplos episódios nos quais fomos massacrados. Outros comentaristas, no entanto, focaram suas interpretações no estabelecimento de uma ner tamid (chama eterna) através das nossas ações, nos orientando a ter um comportamento que ajude o mundo a se encher de luz, especialmente em seus momentos mais sombrios.
A história do encontro com Amalek tem continuação na haftará (leitura dos livros dos Profetas) desta semana, que trata de um dos episódios mais difíceis de todo o Tanach. Nele, o profeta Shmuel instrui o rei Shaul a destruir todo o povo de Amalek: homens, crianças, bebês e animais sem distinção. Essa passagem sempre me deixou profundamente incomodado, pois me parece que o profeta está instruindo o rei a agir de acordo com as piores práticas do nosso oponente: a matar de forma indiscriminada, inclusive aqueles que são extremamente vulneráveis e indefesos.
O rei Shaul não cumpre a instrução de forma integral, poupando a vida do rei de Amalek e dos melhores animais para serem oferecidos como sacrifício a Deus. De acordo com Shmuel, por não ter seguido Suas instruções, Deus o rejeita como rei. Pensando nos exemplos de Avraham e de Moshé, que tiveram a ousadia de debater com Deus quando as ordens que recebiam lhe pareciam afrontar a própria ética que Deus transmitia, eu prefiro imaginar que a rejeição de Shaul como rei não foi causada por ele ter poupado a vida do rei de Amalek ou de alguns animais, mas por ele ter aceitado sem questionamento a instrução de destruir todo um povo.
Em múltiplas passagens, a tradição judaica nos instrui que, ao conquistarmos a terra de Israel, devemos ter especial cuidado para proteger a viúva, o órfão e o estrangeiro, pois fomos estrangeiros na terra do Egito. Assim, somos alertados a não esquecermos nosso sofrimento quando nossa vida melhorar; de alguma forma, é uma instrução para não nos transformamos, nós mesmos, em Amalek.
Vivendo na tensão entre o lembrar e o esquecer, entre ser vulnerável e abusar do poder, que as leituras deste shabat especial nos ajudem a reconhecer nossas fragilidades, ao mesmo tempo em que assumimos a responsabilidade de ajudar a estabelecer no mundo fontes permanentes de luz e proteção a quem mais precisa.
Shabat Shalom!
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020
Dvar Torá: Alinhando o que dizemos e o que fazemos (CIP)
- Be’tselem Elohim: a ideia de que fomos todos criados à imagem Divina, que nos confere dignidade inalienável;
- Shabat: um dia diferente dos outros 6 dias da semana, para desconectarmos do mundo como ele é e nos inspirarmos com como o mundo poderia ser;
- Le’dor va’dor: o profundo respeito pela tradição conforme ela tem sido transmitida e transformada de geração em geração;
- Tshuvá: a possibilidade permanente de retornarmos à melhor versão de quem somos;
- Elu ve’elu: a valorização do pluralismo judaico, reconhecendo que perspectivas contraditórias podem ser simultaneamente verdadeiras e válidas;
- Zachor et Ietsiát Mitsrayim: a valorização da liberdade física e espiritual;
- Zachor et asher assá lechá Amalek: a obrigação de buscar extirpar o mal do mundo;
- Ki guerim heeitem: a lembrança dos momentos em que fomos oprimidos e da nossa obrigação em ajudar aqueles que vivem sob opressão hoje em dia;
- Hachnassat Orchim: a hospitalidade, fazendo com que todos se sintam acolhidos, ouvidos e enxergados;
- Tsedacá: a generosidade do nosso tempo e dos nossos recursos.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020
Líderes ou semi-deuses
A questão da liderança é um dos tópicos centrais da parashá desta semana. Logo em seu início, Itró, o sacerdote midianita que era sogro de Moshé, dá dicas de liderança a Moshé, indicando como delegar parte das suas responsabilidades judiciais e mantendo-se apenas nos casos mais complexos. “Você deve procurar dentre todo o povo, pessoas capazes que temem a Deus, pessoas confiáveis que desprezam ganhos ilícitos.” [1] Segundo Itró, a concentração de todas as demandas judiciais nas mãos de um único líder acarretaria, inexoravelmente, em seu desgaste e no desgaste da confiança que a população depositava nas instituições. Ao seguir as orientações de seu sogro, Moshé foi capaz de instituir um sistema de justiça em várias instâncias, ao mesmo tempo em que desenvolvia novas lideranças.
Moshé foi um líder exemplar. A seu respeito, diz a tradição “não houve mais entre o povo de Israel [outro] como Moshé, que conheceu Adonai face-a-face” [2]. Mesmo assim, Moshé não foi considerado um líder infalível: foi punido por Deus e impedido de entrar na Terra de Israel. Temos um episódio na parashá desta semana que nas últimas décadas tem atraído bastante atenção e polêmica. Em preparação ao momento da Revelação no Monte Sinai, Deus pede a Moshé que instrua o povo a se manter puro, de roupas lavadas e afastado do monte; Moshé transmite a mensagem, adicionando “não se aproxime de uma mulher” [3]. Esta adição de Moshé ao que Deus havia instruído tem rendido críticas que apontam que esse discurso só se aplicaria se fosse dirigido apenas aos homens. A exclusão das mulheres como público de sua fala tem justificado críticas pesadas a Moshé por parte de judeus e judias feministas contemporâneos.
Até a respeito de Moshé, o profeta como nenhum outro, levantamos críticas, que não o desqualificam como líder, mas humanizam sua figura. Por que, então, parece tão difícil hoje em dia aceitar críticas direcionadas ao líder preferido de cada um? O primeiro dos Dez Mandamentos (também parte da parashá desta semana) termina afirmando: “não tenha outros deuses além de mim” [4]. Na lealdade a alguns líderes, no entanto, acabamos esquecendo desse preceito judaico, tratando aqueles que admiramos como semi-deuses e recusando qualquer crítica, por mais legítima que seja.
Que ao escutar essa parashá possamos encarar nossos líderes como humanos, com acertos e defeitos, com relação a quem críticas são possíveis e até bem vindas!
[1] Ex. 18:21
[2] Deut. 34:10
[3] Ex. 19:15
[4] Ex. 20:4