sexta-feira, 20 de março de 2020

Dvar Torá: Percebendo a generosidade ao nosso redor (CIP)

Uma música israelense lançada há uns 15 anos, Shirat haSticker, fazia uma colagem de mensagens, principalmente políticas, de adesivos. O texto foi escrito pelo poeta David Grossman, transformado em rap pela banda haDag Nachash e trazia uma série de sobreposições de ideias opostas que levava a resultados inusitados. 

Fiquei pensando nessa música hoje, na esperança de compor uma prédica inteira com as dezenas, talvez centenas, de memes que eu recebi no WhatsApp, em grupos de amigos, de pais de colegas dos meus filhos na escola, e de outros conhecidos, todos tentando encontrar algum sentido e alguma graça nessa nossa nova rotina, com medo do vírus, do seu impacto na nossa saúde e nos nossos bolsos; sem saber o que fazer com nossos filhos com aulas presenciais suspensas, tendo que virar pai e professor, tudo ao mesmo tempo; assustados igualmente pela falta de informação e pelo excesso dela, especialmente assustados com a informação falsa, que cria pânico e que, por ironia, se espalha com ainda mais rapidez nesses nossos tempos de redes sociais.

No final, abandonei a ideia de uma prédica só com esses memes, mas guardei um que, sem qualquer motivo especial, me chamou especialmente a atenção. Dizia: “na verdade, ficar em casa não é tão ruim assim, mas me parece muito estranho um saco de arroz ter 8956 grãos e o outro, 8743.” Sonhamos com a possibilidade do ócio criativo, um tempo de descanso para nossas almas e corpos cansados. Sonhamos com a chance de colocar a leitura em dia, de arrumar a casa, de limpar a caixa de emails — mas ninguém queria que fosse nessas condições, preocupados com os idosos em nossas vidas e com aqueles nem tão idosos assim, com medo do que as próximas semanas nos reservam. E, nessa dúvida do que fazer com o tempo, acabamos fazendo coisas que o preenche sem lhe dar nenhum significado — como contar os grãos de arroz no saco.

Esta semana temos uma parashá dupla: Vayakhel-Pecudei. Logo no começo da parashá Vayakhel, Moshé congrega toda a comunidade — e a palavra Vayakhel quer dizer exatamente isso: “congregar”, da mesma raiz que “kehilá”, “congregação”. Então, Moshé fala do Shabat e na sequência, ele pede presentes para os rituais religiosos da época: para a construção do Mishkán, com todas as suas partes, para as roupas dos Kohanim, etc. E as pessoas responderam, com נדיבות לב, “generosidade do coração”, eles começaram a trazer ouro, broches, brincos, anéis e pingentes, fios coloridos azuis, púrpura e vermelhos, linho de alta qualidade, lã de cabrito, objetos de cobre e de prata, objetos de madeira sólida. E as pessoas, em sua generosidade, doavam seu tempo e sua expertise, tecendo, construindo e adaptando o que era doado. Em comunidade, eles se mobilizaram e, com generosidade, se entregaram à tarefa.

Hoje eu assisti um colega, o rabino Josh Whinston, cantar para seus filhos lindas músicas de Shabat com a câmera ligada na sala da sua casa, para que todos pudéssemos desfrutar deste momento. Com violões, pandeiros e outros instrumentos, a felicidade da família dele se transformou em felicidade de todos. Hoje, eu escutei de empresas de cosméticos que doarão sabonete líquido para comunidades menos favorecidas. Empresas de bebida no exterior e no Brasil, que converteram suas linhas industriais para produzir álcool gel. As empresas de TV a cabo estão disponibilizando seus pacotes de filmes de graça para as pessoas que ficarão em casa e muitas universidades no Brasil e no exterior estão oferecendo cursos online gratuitos. Em muitos prédios, vizinhos entraram em contato com os idosos seus vizinhos e se ofereceram para fazer as compras. Jornais liberaram o conteúdo de tudo o que se relacione ao Coronavírus. Artistas estão fazendo shows em suas casas e transmitindo pela internet. Produtoras de filmes disponibilizaram seus acervos. Professores das mais diversas competências passaram a dar aula online. Cada um, a partir da sua נדיבות לב, da generosidade do seu coração, resolveu fazer algo para o bem da comunidade, da קהילה.

Na parashá da semana passada, lemos sobre o bezerro de ouro, o pecado de achar que o Divino está na fisicalidade de um objeto. Estamos cada um em nossas casas, este salão de sinagoga vazio… a casca, o aspecto físico da nossa comunidade está vazio, mas continuamos com a capacidade de sermos uma comunidade, um grupo de pessoas que se importam uns com os outros, que se apóiam mutuamente, que são generosos uns com os outros, especialmente em momentos de dificuldade como este. A CIP continua ativa, com cursos, palestras e serviços religiosos transmitidos online; os rabinos e o resto do corpo profissional continuam prontos a atender vocês, agora pelo telefone ou por vídeo-conferência.

No começo da instrução para a construção do Mishkán, que lemos há algumas semanas em parashat Trumá, Deus diz ao povo que Lhe façam um Santuário “para que Eu possa morar entre eles”. No final de parashat Pecudei, a segunda parte da leitura deste Shabat, quando todos tinham se doado ao máximo pela constituição da comunidade, a presença Divina habitou entre eles. O Sfat Emet, um comentário chassídico polonês do final do século 19, entende que Deus habita literalmente dentro de cada um dos israelitas. 

É o ato de generosidade que torna esta intimidade possível, que faz com que Deus se torne parte de cada um de nós. É a verdadeira generosidade dos nossos corações, nem sempre com dinheiro, mais frequentemente com atitude, que transforma o distante e cósmico em um Deus próximo, intimo, parceiro. Era verdade nos tempos do deserto e continua sendo verdade em nossas cidades semi-desertas em tempos de Coronavírus.

Que nesse shabat, o distanciamento que esta pandemia nos impõe seja percebido como a prova de amor que realmente é; que continuemos nos importando, nos ajudando, nos acolhendo, apesar da distância física; que cada um possa oferecer o que tem de melhor para que saiamos mais fortes e mais unidos deste contexto surreal em que hoje nos encontramos.

Shabat Shalom!

quinta-feira, 19 de março de 2020

De Purim a Pessach: Proteção e Vingança em Diálogo no Calendário Judaico (ou os riscos do 'perseguido' se transformar em 'perseguidor')


Todo ano, no começo de fevereiro, o mesmo cenário: em esquinas-chave de São Paulo, encontramos grupos de jovens, suas caras pintadas com os nomes das faculdades em que foram aprovados, pedindo dinheiro aos motoristas para poderem ir beber cerveja com os novos colegas. Acompanhando a alguma distância, estão os recém-veteranos, alunos do segundo ano, comemorando o fato de já não serem mais eles quem precisa passar pelo vexame. Pedir dinheiro nas esquinas é, provavelmente, a prática mais visível e inocente do trote pelo qual passam os calouros que, em alguns casos, envolvem episódios sérios de violência física e moral. A cada tantos anos, voltam à imprensa casos menos visíveis e menos inocentes, que nunca deixam de causar polêmica.

Penso muito na transição de calouro para veterano e sobre como, nela, o oprimido de um ano passa facilmente para a condição de opressor, no ano seguinte; o pensamento corrente parece ser: “se alguém sofreu o trote no seu ano, por que abriria mão de dar o trote no ano seguinte? ” Todas as práticas que incomodavam e humilhavam, gerando alguma revolta, passam a ser justificadas, usando os mesmos argumentos que, no ano anterior, eram prontamente rebatidos. 

Escrevo este artigo próximo de Purim, a festa judaica que comemora a salvação dos judeus da Pérsia. Segundo a história do Livro de Ester, o pérfido primeiro-ministro Haman tinha planejado um genocídio contra os judeus, que só foram salvos porque Ester, a rainha que tinha sido escolhida em um concurso de beleza, era secretamente judia e intercedeu junto ao rei para evitar a tragédia. Há um lado da história desta festa, no entanto, também descrito no Livro de Ester, para o qual se dá, tradicionalmente muito menos atenção: no final da história, com um judeu tendo substituído Haman na posição de primeiro-ministro e com a autorização do rei de que utilizassem armas para se defender, os judeus da Pérsia cometeram um massacre e mataram mais de 75.000 pessoas. 

Oprimidos sob risco de genocídio, esses judeus conseguiram chegaram próximos do poder e, em sua sede de vingança, se tornaram aquilo que eles mesmos mais rejeitavam. No shabat que antecede Purim, chamado Shabat Zachor, uma leitura especial da Torá nos instrui a não nos esquecermos de apagar a memória de Amalek que, na tradição judaica, é associado à violência contra aqueles em situação de vulnerabilidade e tem, entre seus descendentes, Haman, o vilão da história de Purim. Uma leitura possível deste mandamento é que devemos erradicar fisicamente Amalek e seus descendentes; outra possibilidade é que a Torá está nos alertando para que não nos transformemos nós mesmos em Amalek, nos orientando para olharmos a história de Purim e vermos como os judeus se transformaram em Haman. 

Infelizmente, não é só no trote universitário ou na história de Purim que encontramos a transformação de oprimido em opressor. Não são raras as vezes em que escutamos histórias de como “meus avós não tinham nada e foram capazes de se estabelecer e prosperar. Quem não consegue progredir é por preguiça e falta de esforço. ” Em vez de gerar solidariedade e empatia, a experiência de ter vivido sob condições extremamente difíceis e conseguido escapar delas pode dar origem a um sentimento de superioridade que impede a conexão com quem vive às margens da sociedade, hoje.

A perspectiva oposta a esta tem centralidade na tradição judaica, por exemplo, em Pessach, a festa que celebramos depois de Purim e na qual nos lembramos da libertação dos hebreus do Egito, onde tinham sido mantidos como escravos. Nossa experiência vivendo sob opressão no Egito determina que devemos ser especialmente cuidadosos para proteger quem vive em condições similares hoje em dia. Segundo o Talmud, a obrigação de “proteger o estrangeiro porque fomos estrangeiros na terra do Egito” aparece pelos menos 36 vezes no texto da Torá. De acordo com muitos autores “guer” (a palavra bíblica para “estrangeiro”) é uma metáfora para a condição de opressão sob a qual os estrangeiros viviam. Portanto, a obrigação deve ser entendida como nos instruindo a “proteger o oprimido porque fomos oprimidos na terra do Egito”.

A centralidade de obrigação judaica para com os menos favorecidos na nossa sociedade é inquestionável, tanto pelo número de vezes em que é repetida no texto da Torá como pelo diálogo que estabelece com muitos outros textos judaicos, que caracterizam e implementam esta preocupação. Trata-se de mandamentos sobre a forma como devemos pagar salários em dia ou deixar áreas dos nossos campos para que quem precisa possa entrar e se alimentar, entre muitos outros. Pode-se argumentar que foi ao redor da ideia de proteger o vulnerável que toda a tradição judaica foi construída: nossa experiência como escravos determinou de tal forma a identidade judaica que a preocupação com justiça social passou a fazer parte de forma indissociável do judaísmo. Ao mesmo tempo, no entanto, precisamos reconhecer que uma leitura vitimizacionista e revanchista para Purim também faz parte da tradição judaica — ignorá-la seria um erro conceitual e, ainda pior, um erro estratégico para a promoção de um judaísmo que acredita na defesa permanente dos direitos humanos como um dos seus eixos fundamentais.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Pêssach - Fascículo da UJR

(texto originalmente publicado em https://ujr-amlat.org/wp-content/uploads/2020/10/pessach_2020_port01.pdf)

A origem da comemoração de Pessach

Com a lua cheia, em 15 de Adar, o primeiro mês do ano na contagem bíblica, os hebreus, que haviam permanecido em Mitsrayim por mais de quatro séculos, foram libertados. A noite anterior tinha sido passada em apreensão: um cordeiro deveria ser sacrificado, seu sangue usado nos batentes das portas para indicar as casas dos hebreus que seriam poupadas da última praga, a morte dos primogênitos; a carne do cordeiro assada e consumida por cada família com matsá e ervas amargas; o cinto apertado, sandálias nos pés, cajado na mão, prontos para partirem; tudo devia ser consumido de forma apressada,. É assim que a Torá relata o primeiro Pessach[1], que na tradição passou a ser chamado de Pessach Mitsrayim, a noite em que os hebreus foram libertados. 

Os versos seguintes a este relato apresentam também a forma como Pessach deveria ser comemorado dali para frente (o que na tradição passou a ser chamado Pessach haDorot): com matsot e sem o consumo de chamêts por sete dias[2]. Quando o povo entrasse na Terra de Israel e a experiência da servidão fosse apenas uma memória, seus filhos lhes perguntariam o motivo deste ritual - e os hebreus deveriam explicar a seus filhos que era para lembrar-se da forma como Deus os havia redimido da opressão em Mitsrayim. Esta idéia, de que os pais devem explicar a seus filhos sobre a saída de Mitsrayim, é repetida quatro vezes na Torá[3],  deu origem ao Seder de Pessach (uma forma estruturada de explicar o motivo da festa) e a algumas das tradições relacionadas ao número quatro (como as quatro crianças da hagadá, por exemplo).

 

A comemoração de Pessach nos nossos dias

De acordo com a tradição, não apenas nos lembramos da saída de Mitsarayim em Pessach, mas revivemos aquele momento: em cada geração, toda pessoa é obrigada a ver a si mesma como se ela tivesse sido pessoalmente libertada[4]. O Seder de Pessach é nossa forma de reviver e explicar, de ir da opressão à redenção, de ligar nossa libertação no passado com os desafios que enfrentamos no presente e de expressar nossa esperança de que alcancemos sua solução também em nossas vidas: ba shaná ha-baá biYerushalayim.

O rabino e filósofo israelense, Donniel Hartman, presidente do Instituto Hartman, renomado Instituto de Estudos Judaicos em Jerusalém, defende que há mais de uma história sobre o Êxodo que pode ser contada em Pessach[5]. Uma versão da história relata um episódio de redenção do povo judeu devido à nossa relação com Deus, que não pôde ficar passivo quando Seus filhos estavam sendo oprimidos. É uma perspectiva em que a experiência do Êxodo é particular e tem pouco a ensinar sobre outros episódios de opressão nos quais o povo judeu não esteja envolvido. Uma outra versão da história trata de um processo de Libertação conduzido porque Deus odeia a opressão, independentemente das partes envolvidas. O Rabino Hartman lembra que estas duas perspectivas foram contempladas no texto da hagadá, mas que nem sempre recebem o mesmo destaque na forma como contamos a história – e nos desafia a considerar qual mensagem de Pessach queremos privilegiar em nossos sedarim

A tensão entre o foco na servidão e subsequente libertação dos hebreus ou nas opressões contemporâneas tem definido, em grande parte, a forma como o ritual se desenvolveu no último século. Por uma narrativa mais contemporânea e inclusiva, estão sedarim nos quais a opressão das mulheres, dos refugiados, dos LGBTQ+, dos negros, ocupam lugar central como expressão contemporânea do sofrimento pelo qual os hebreus passaram em Mitsrayim. A criação de hagadot feministas, por exemplo, é extensa e remonta há quase cinco décadas. Nestes textos, é destacado o papel das mulheres na redenção dos hebreus: Iocheved, a mãe de Moshé que teve a coragem de ter um filho apesar das restrições impostas pelo faraó; Miriam, a irmã que acompanhou a cesta em que Moshé estava e ofereceu ajuda à filha do faraó; Bat-Ia, a filha do faraó, que tendo encontrado um bebê hebreu nas águas do rio, contrariou as ordens de seu pai e salvou-o; Shifra e Puá, as parteiras egípcias que se negaram a seguir as ordens do faraó para matar os meninos hebreus porque eram “tementes a Deus.” Numa adição ao ritual de Pessach que tornou-se bastante comum mesmo fora dos sedarimfeministas, uma laranja foi adicionada à keará, o prato com alimentos simbólicos colocado no centro da mesa. De acordo com Susannah Heschel, a autora desta ideia, “eu escolhi a laranja porque ela sugere como pode ser frutífero para todos os judeus quando lésbicas e homens gays são membros ativos e contribuem para a vida judaica.”[6]

Outra adições recentes à keará incluem azeitonas (em lembrança ao conflito entre israelenses e palestinos, a importância que campos de oliveiras têm para as duas culturas e o sinal de paz e tranquilidade que um ramo de oliveira trazido por uma pomba representou para Noach[7]) e produtos agrícolas nos quais as práticas de produção contemporâneas possam incluir o trabalho em condições similares à escravidão (como cana de açúcar, avelã, cacau e tomate). Em contextos reformistas, cada família e cada comunidade são convidadas a buscar como expressar, de forma ritual, sua preocupação com as questões contemporâneas que envolvam a opressão de grupos ou comunidades.

 

Algumas perguntas para você pensar….

Pessach é conhecida como a festa em que as perguntas são encorajadas. No entanto, algumas perguntas da hagadá são ritualizadas, focadas em tecnicalidades da observância do feriado. Que outras perguntas você gostaria de trazer para o seu seder este ano? Que conversas sobre a Opressão e sobre a Liberdade você gostaria de estabelecer com seus amigos e familiares?

Aqui vão algumas ideias:

 No Chassidismo, a abstinência de chametz é entendida como uma metáfora para o trabalho espiritual de desinflar nossos egos inflados. Tomando esta ideia como ponto de partida, como podemos usar as discussões do seder para melhorar nossa interação com o mundo?

 Conforme mencionado acima, Donniel Hartman nos desafia a considerar o equilíbrio entre o particular e o universal na história que contamos em nossos sedarim. Em sua opinião, qual deve ser a ênfase das conversas ao redor da mesa de Pessach: a libertação dos hebreus do Egito ou a luta contra a opressão nos nossos dias?

 No tempo dos hebreus, os dez “golpes” (normalmente traduzidos como “pragas”) foram a forma que Deus encontrou para forçar o faraó a libertar os hebreus da servidão. De que ferramentas dispomos hoje em dia para agir em defesa dos valores representados por Pessach?

 Muitas vezes, a tradição judaica estabelece que, quando atingirmos uma posição de poder, nosso papel será distinto daquele que era até então, nos obrigando a agirmos com mais ênfase na defesa dos segmentos mais vulneráveis da sociedade (a linguagem utilizada, normalmente, faz referência às viúvas, aos órfãos e aos estrangeiros). De que maneira a criação do Estado de Israel mudou a responsabilidade que judeus têm de agirem pelo fim da opressão nos lugares em que se encontram? 



[1] . Ex. 12:1-13

[2] . Ex. 12:14-20

[3] Ex. 12:25-27; Ex. 13:14-16, Ex. 13: 5-8, Deut. 6:20-25.

[4] . Mishná Pesachim 10:5

[5] . http://blogs.timesofisrael.com/pesach-a-tale-of-two-stories/

[6] . Heschel, Susannah. “Orange on the Seder Plate.” in The Women’s Passover Companion: Women’s Reflections on the Festival of Freedom. Rabbi Sharon Cohen Anisfeld, Tara Mohr and Catherine Spector (eds.). Woodstock, VE: Jewish Lights. 2003. pp. 70-77.

[7] . Gen. 8:11.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Sendo responsáveis pelo que lembramos e pelo que esquecemos

Três textos que lemos neste shabat nos convidam a pensar sobre memória, a concepção que temos de nós mesmos e sobre responsabilidade. Este é o shabat que precede Purim e que recebe um nome especial: Shabat Zachor, ou o “Shabat em que você deve se lembrar”. O nome vem do maftir, uma passagem que lemos ao final da leitura da Torá de sábado, que começa com Zachor (“lembre-se”) e termina com “não esqueça” e que faz referência à atitude de Amalek, que atacou os hebreus após a saída do Egito, quando eles estavam vulneráveis, cansados e famintos. Por essa ação, Amalek tornou-se na tradição judaica referência ao mal absoluto, à agressão injustificada e desmedida, a ataques sem nenhuma consideração pela moral ou pela ética. A passagem termina dizendo: ”você deve apagar a memória de Amalek de debaixo do céu. Não esqueça!”

O que escolhemos lembrar e do que escolhemos nos esquecer? Em particular, ao pensarmos na história judaica: nos lembramos dos momentos em que, vulneráveis, fomos massacrados ou daqueles em que, detendo o poder, tivemos a obrigação de apresentarmos um comportamento exemplar, incluindo a proteção aos segmentos mais fragilizados das nossas sociedades?

Esse debate está presente também em muitos comentários para as primeiras linhas da parashá desta semana: “instrua os israelitas a trazerem óleo claro de azeitonas batidas para iluminação, para acender uma ner tamid (chama eterna)”. Muitos foram os comentaristas que interpretaram que o “óleo claro de azeitonas batidas” é uma referência ao sofrimento judaico ao redor dos séculos e os múltiplos episódios nos quais fomos massacrados. Outros comentaristas, no entanto, focaram suas interpretações no estabelecimento de uma ner tamid (chama eterna) através das nossas ações, nos orientando a ter um comportamento que ajude o mundo a se encher de luz, especialmente em seus momentos mais sombrios.

A história do encontro com Amalek tem continuação na haftará (leitura dos livros dos Profetas) desta semana, que trata de um dos episódios mais difíceis de todo o Tanach. Nele, o profeta Shmuel instrui o rei Shaul a destruir todo o povo de Amalek: homens, crianças, bebês e animais sem distinção. Essa passagem sempre me deixou profundamente incomodado, pois me parece que o profeta está instruindo o rei a agir de acordo com as piores práticas do nosso oponente: a matar de forma indiscriminada, inclusive aqueles que são extremamente vulneráveis e indefesos.

O rei Shaul não cumpre a instrução de forma integral, poupando a vida do rei de Amalek e dos melhores animais para serem oferecidos como sacrifício a Deus. De acordo com Shmuel, por não ter seguido Suas instruções, Deus o rejeita como rei. Pensando nos exemplos de Avraham e de Moshé, que tiveram a ousadia de debater com Deus quando as ordens que recebiam lhe pareciam afrontar a própria ética que Deus transmitia, eu prefiro imaginar que a rejeição de Shaul como rei não foi causada por ele ter poupado a vida do rei de Amalek ou de alguns animais, mas por ele ter aceitado sem questionamento a instrução de destruir todo um povo.

Em múltiplas passagens, a tradição judaica nos instrui que, ao conquistarmos a terra de Israel, devemos ter especial cuidado para proteger a viúva, o órfão e o estrangeiro, pois fomos estrangeiros na terra do Egito. Assim, somos alertados a não esquecermos nosso sofrimento quando nossa vida melhorar; de alguma forma, é uma instrução para não nos transformamos, nós mesmos, em Amalek.

Vivendo na tensão entre o lembrar e o esquecer, entre ser vulnerável e abusar do poder, que as leituras deste shabat especial nos ajudem a reconhecer nossas fragilidades, ao mesmo tempo em que assumimos a responsabilidade de ajudar a estabelecer no mundo fontes permanentes de luz e proteção a quem mais precisa.

Shabat Shalom!

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Dvar Torá: Alinhando o que dizemos e o que fazemos (CIP)

Meu pai era arquiteto e foi em um apartamento construído pela construtora na qual ele trabalhou por mais de três décadas que eu cresci. Como em casa de ferreiro, o espeto é de pau, às vezes, na mesa de jantar, meu pai assumia o papel de construtor e minha mãe, o papel de cliente, e as discussões sobre algum aspecto do apartamento iam esquentando até parecerem um tribunal de pequenas causas.
Uma coisa que meu pai nunca conseguiu entender era a insistência da minha mãe para que os armários da cozinha tivessem fundo. Do ponto de vista dele, não tinha problema nenhum se, ao abrir um armário vazio, enxergássemos os azulejos, que são duráveis, fáceis de limpar e tinham sido escolhidos por serem esteticamente atraentes. Minha mãe, por outro lado, nunca abriu mão do fundo do armário da cozinha — e, como cliente tem sempre razão, ela sempre levou a melhor nesta disputa.
A parashá desta semana foca em questões de construção. Nela, começamos a receber as detalhadas instruções para a construção do Mishkán, uma espécie de Templo móvel, através do qual os hebreus poderiam focar seus esforços religiosos enquanto estivessem vagando pelo deserto. Em um verso famoso e interessante logo no começo da parashá, Deus diz a Moshé: “וְעָשׂוּ לִי מִקְדָּשׁ וְשָׁכַנְתִּי בְּתוֹכָם”, “[que eles] construam para mim um Santuário, para que eu possa viver entre eles.”[1] O texto não diz que Deus passará a viver no Santuário, cujas instruções de construção estão sendo transmitidas — mas que o processo de construção do Santuário fará com que Deus resida dentro do povo. Guardem essa ideia, que já vamos revisitá-la…
Como primeiro passo para a construção do Mishkán, vêm as instruções para a montagem do Arón, a arca na qual ficariam guardadas as Tábuas da Lei. Pra desespero do meu pai, as instruções para a construção do Arón concordam com a visão de armário da minha mãe e determinam que ele precisa ser revestido de ouro puro por dentro e por fora! Os Rabinos ficaram muito incomodados com esta instrução… pensem em uma caixa de jóias que vocês tenham: elas são, normalmente, decoradas pelo lado de fora mas de veludo preto ou vermelho do lado dentro. Porque a arca que conteria as Tábuas da Lei precisava ser revestida de ouro por dentro e por fora?! A resposta é dada em um midrash [2]: esta instrução veio para ensinar a um talmid chacham, um discípulo de sábio que תּוֹכוֹ כְּבָרוֹ, "tochô ke'varô", o que ele projeta para o mundo exterior deve corresponder ao seu interior. Nas palavras do rabino Hillel Silverman, “este é o real significado de integridade. O exterior de uma pessoa — suas palavras e ações — devem refletir seu caráter e personalidade interior. Nós devemos acreditar no que dizemos e dizer aquilo em que acreditamos.” [3]
O significado transmitido pelas nossas ações contam tanto quanto o significado transmitido pelas nossas palavras. Depois de me formar rabino, eu trabalhei nos EUA por alguns anos e, em 2013, eu voltei para o Brasil para assumir a Diretoria da Área Judaica do Peretz. Naquela época, nós organizamos alguns encontros com famílias do Fundamental 1 para discutir qual era a formação judaica que elas esperavam que a escola oferecesse. Havia quem pedisse mais hebraico e quem quisesse menos hebraico; quem quisesse um ensino mais religioso e quem quisesse menos; quem quisesse mais sionismo e quem pedisse menos. Em um assunto, no entanto: havia consenso — todo mundo queria que o ensino judaico da escola fosse em valores judaicos!
O que são estes valores judaicos? Pela frequência com que este termo é repetido, deveria ser alguma coisa absolutamente clara para todos nós, conceitos sobre os quais estaríamos prontos para palestrar sem aviso prévio. Será que vocês conseguem pensar em uma lista de dez valores judaicos em alguns segundos?
Aqui vai uma lista dos dez primeiros que vieram à minha mente:
  1. Be’tselem Elohim: a ideia de que fomos todos criados à imagem Divina, que nos confere dignidade inalienável;
  2. Shabat: um dia diferente dos outros 6 dias da semana, para desconectarmos do mundo como ele é e nos inspirarmos com como o mundo poderia ser;
  3. Le’dor va’dor: o profundo respeito pela tradição conforme ela tem sido transmitida e transformada de geração em geração;
  4. Tshuvá: a possibilidade permanente de retornarmos à melhor versão de quem somos;
  5. Elu ve’elu: a valorização do pluralismo judaico, reconhecendo que perspectivas contraditórias podem ser simultaneamente verdadeiras e válidas;
  6. Zachor et Ietsiát Mitsrayim: a valorização da liberdade física e espiritual;
  7. Zachor et asher assá lechá Amalek: a obrigação de buscar extirpar o mal do mundo;
  8. Ki guerim heeitem: a lembrança dos momentos em que fomos oprimidos e da nossa obrigação em ajudar aqueles que vivem sob opressão hoje em dia;
  9. Hachnassat Orchim: a hospitalidade, fazendo com que todos se sintam acolhidos, ouvidos e enxergados;
  10. Tsedacá: a generosidade do nosso tempo e dos nossos recursos.
תּוֹכוֹ כְּבָרוֹ, tochô kevarô, a ideia de que o nosso interior deve corresponder à impressão que deixamos no mundo , implica buscarmos praticar estes valores nos quais dizemos acreditar. Implica pensar no impacto das nossas ações, mesmo das ações cotidianas, que todo mundo faz sem pensar. Esta ano, encorajados por uma das nossas morot, abandonamos o uso de glitter e de purpurina no programa de Bar e Bat-Mitsvá da CIP. Sim, é divertido; sim, todo mundo usa; mas os impactos ambientais são terríveis e nós consideramos que não fazia sentido ensinarmos aos nossos alunos sobre as formas como o Judaísmo valoriza o meio-ambiente quando nossas ações testemunhavam na direção contrária. 
Nossas ações dizem tanto quanto nossas palavras, talvez até mais. Se queremos criar espaço para o sagrado em nossas vida, um Templo que possamos carregar a todo lugar a que vamos, de tal forma a garantir que Deus se aloje entre nós, o primeiro passo precisa ser garantir que o nosso revestimento de ouro, nossa melhor aparência, não seja só pra inglês ver, que ela tenha tanto impacto do lado de dentro quanto tem do lado de fora.
Martin Buber conta que o mestre chassídico Mendel de Kotzk perguntou aos seus discípulos: “onde é a morada de Deus”, ao qual eles lhe responderam sem pensar duas vezes: “מְלֹא כָל הָאָרֶץ כְּבוֹדוֹ”, “todo o mundo está cheio da Glória de Deus”. O rabino, então, respondeu sua própria pergunta: “Deus mora em todo lugar em que deixamos Deus entrar.” [4]
וְעָשׂוּ לִי מִקְדָּשׁ וְשָׁכַנְתִּי בְּתוֹכָם”,  quando criarmos o alinhamento entre nossas declarações, nossas ações e nossos desejos, quando formos prova viva dos valores que dizemos querer preservar, tenho certeza de que Deus estará entre nós.

[1] Ex. 25:8
[2] Midrash Tanchuma Vayakhel 7:3.
[3] Harvey J. Fields, A Torah Commentary for Our Times: Volume Two, Exodus and Leviticus. UAHC Press: New York. 1991. p. 67
[4] Harvey J. Fields, A Torah Commentary for Our Times: Volume Two, Exodus and Leviticus. UAHC Press: New York. 1991. p. 64

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Líderes ou semi-deuses

Como escolhemos nossos líderes e o que esperamos deles depois que eles chegam a posições de poder? Quando julgamos seu comportamento ético, será que devemos ser mais tolerantes (reconhecendo as múltiplas e opostas demandas que lhes são apresentadas) ou mais exigentes (levando em consideração a forma como líderes servem de exemplo)? E com relação ao seu comportamento pessoal, devemos esperar mais dos líderes do que esperamos das outras pessoas?

A questão da liderança é um dos tópicos centrais da parashá desta semana. Logo em seu início, Itró, o sacerdote midianita que era sogro de Moshé, dá dicas de liderança a Moshé, indicando como delegar parte das suas responsabilidades judiciais e mantendo-se apenas nos casos mais complexos. “Você deve procurar dentre todo o povo, pessoas capazes que temem a Deus, pessoas confiáveis que desprezam ganhos ilícitos.” [1]  Segundo Itró, a concentração de todas as demandas judiciais nas mãos de um único líder acarretaria, inexoravelmente, em seu desgaste e no desgaste da confiança que a população depositava nas instituições. Ao seguir as orientações de seu sogro, Moshé foi capaz de instituir um sistema de justiça em várias instâncias, ao mesmo tempo em que desenvolvia novas lideranças.

Moshé foi um líder exemplar. A seu respeito, diz a tradição “não houve mais entre o povo de Israel [outro] como Moshé, que conheceu Adonai face-a-face” [2]. Mesmo assim, Moshé não foi considerado um líder infalível: foi punido por Deus e impedido de entrar na Terra de Israel. Temos um episódio na parashá desta semana que nas últimas décadas tem atraído bastante atenção e polêmica. Em preparação ao momento da Revelação no Monte Sinai, Deus pede a Moshé que instrua o povo a se manter puro, de roupas lavadas e afastado do monte; Moshé transmite a mensagem, adicionando “não se aproxime de uma mulher” [3]. Esta adição de Moshé ao que Deus havia instruído tem rendido críticas que apontam que esse discurso só se aplicaria se fosse dirigido apenas aos homens. A exclusão das mulheres como público de sua fala tem justificado críticas pesadas a Moshé por parte de judeus e judias feministas contemporâneos. 

Até a respeito de Moshé, o profeta como nenhum outro, levantamos críticas, que não o desqualificam como líder, mas humanizam sua figura. Por que, então, parece tão difícil hoje em dia aceitar críticas direcionadas ao líder preferido de cada um? O primeiro dos Dez Mandamentos (também parte da parashá desta semana) termina afirmando: “não tenha outros deuses além de mim” [4]. Na lealdade a alguns líderes, no entanto, acabamos esquecendo desse preceito judaico, tratando aqueles que admiramos como semi-deuses e recusando qualquer crítica, por mais legítima que seja.

Que ao escutar essa parashá possamos encarar nossos líderes como humanos, com acertos e defeitos, com relação a quem críticas são possíveis e até bem vindas!


[1] Ex. 18:21
[2] Deut. 34:10
[3] Ex. 19:15
[4] Ex. 20:4

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Dvar-Torá: Reconhecendo nossos parceiros e seus apoios (CIP)

Esta semana, eu estava conversando com os professores de bar e bat-mitsvá sobre o papel da Torá na nossa tradição. Haviam aqueles que diziam que era é o nosso “Livro das Leis” e outros que diziam que ele é o “Livro das Nossas Histórias Sagradas”. Tentamos uma análise gramatical da palavra, sem muito sucesso: de um lado, a raiz da palavra Torá está associada à mesma raiz da palavra “moré”, professor, ou “morá”, “professora”. De outro lado, uma busca rápida no dicionário hebraico-hebraico mostra as associações da palavra “Torá” com lei, mandamento, instrução, fundamento para o comportamento e a fé” ou “livro de leis que Moshé deu ao povo de Israel.” [1]
Esse debate não é recente. Em resposta ao primeiro verso da Torá, aquele que dá início à narrativa da Criação do Mundo: “Quando Deus começou a criar o céu e a terra - a terra sendo desforme e vazia, com trevas sobre a superfície das profundezas e um vento de Deus varrendo a água - Deus disse: ‘Haja luz’; e houve luz” [2], Rashi, o mais famoso comentarista da Torá, disse: “Escutei do meu pai que a Torá deveria ter começado apenas em ‘Este mês será para vocês’”. [3] Imaginem só! O mundo sendo criado e o comentário de Rashi é que este assunto não é importante o suficiente para justificar que a Torá se inicie por ele! Deveria ter começado com um verso que faz parte da parashá desta semana, no começo da instrução sobre a comemoração de Pessach dali para frente. Esta é considerada a primeira mitsvá coletiva formalmente formulada na Torá e parece que o pai de Rashi acreditava que a Torá, sendo um livro de leis, deveria começar com leis! Todo o resto seria introdução desnecessária…
Eu, por outro lado, e eu confesso que aqui deve me influenciar bastante minha visão de mundo judaica e o papel que a halachá, a lei judaica, tem nesta visão de mundo, não acho que a Torá seja fundamentalmente um livro de leis e acho que o fato de que o livro não começa no verso “Este mês será para vocês” [4] é prova disso. Na minha leitura, a Torá é o livro das nossas histórias sagradas, de provocações sagradas que tem mantido nosso povo debatendo temas de importância fundamental por gerações e gerações. Nestas férias, eu comecei a ler um dos livros judaicos que estão em moda nos Estados Unidos: “Here All Along: Finding Meaning, Spirituality and a Deeper Connection to Life — in Judaism”; “Sempre Aqui: Encontrando significado, espiritualidade, e uma conexão mais profunda com a vida — no judaísmo”. Sarah Hurwitz, a autora, é uma ex-redatora-chefe dos discursos de Michelle Obama quando ela era a primeira dama dos EUA, que descobriu a profundidade no judaísmo que a educação judaica que tinha recebido na infância nunca tinha lhe transmitido. Eu me animei quando, frente às inúmeras perguntas que ela mesma levanta sobre uma passagem especialmente obscura, ela afirma na introdução: “A Torá não dá respostas claras para estas questões. Esta história não é simplesmente um conto com uma moral no final, é uma provocação, o convite para uma conversa — ou, talvez, um debate.”  [5] Isso!!!! Uma provocação, um convite a uma reflexão mais profunda…
Eu já contei que a primeira mitsvá da Torá está na nossa parashá — então deixa eu também identificar uma provocação que eu acho absolutamente pertinente para esta época do ano e para o que nós todos estamos vivendo.
Eu quero encorajar todo mundo a ler o comentário que o rabino Ruben escreveu sobre esta parashá para o Congregar. Quem não pegou um, encontra o texto também no site [6] e nas mídias sociais da CIP. O rabino Ruben fala do evento do Dia Internacional da Memória do Holocausto aqui na CIP e também do Fórum da Shoá, que aconteceu em Jerusalém com a presença de importantes líderes políticos internacionais. Eu estive aqui na CIP no domingo passado e fomos honrados com a presença de mais de 1.200 pessoas, entre elas importantes lideranças dos mundos político, diplomático, judaico e inter-religioso. Na segunda feira, eu estive em outro ato, desta vez no haShomer haTzair, onde lideranças dos movimentos negro, LGBTQI, de imigrantes, indígena e judaico discutiram como resistir ao silenciamento de suas vozes e à opressão da qual se sentem vítimas. Nas duas instâncias, parcerias importantes foram construídas entre lideranças judaicas e outros movimentos políticos, religiosos e sociais.
Tivemos um arco imenso de apoios — mas, ao invés de celebrarmos este sucesso, continuamos nos sentido abandonados, especialmente quando somos atacados. Só pra falar dos últimos meses, tivemos o episódio do Secretário de Cultura, da revista IstoÉ, da injúria contra o vereador aqui em SP, além de inúmeras suásticas marcadas em muros e um sem número de ofensas pessoais das quais nem ficamos sabendo. Em cada um destes episódios, nos sentimos sozinhos, sem ninguém para nos apoiar.
Quando lemos a história da saída do Egito, nem sempre é óbvio percebermos de que forma somos apoiados, mas os apoios estão lá, claros para quem se dispuser a encontrá-los. Shifra e Puá, as duas parteiras que desafiaram o faraó e se negaram a assassinar os bebês hebreus como ele havia instruído, eram, de acordo com boa parte dos comentaristas, duas mulheres egípcias que escutaram sua consciência. Bat-Yá, a filha do faraó que encontra Moshé boiando no rio Nilo e o adota, também não era hebreia. Como não eram hebreus os vizinhos que concordaram com o pedido dos hebreus e lhes deram objetos de ouro prata [7]. Também não eram hebreus a multidão que escolheu se juntar ao povo de Israel e lhes acompanhar no trajeto da servidão à Terra Prometida [8]. “Erev Rav”, é como eles são descritos no texto da Torá, uma “multidão diversa”. A rabina Gail Labovitz conta que, de acordo com alguns comentaristas, a sociedade egípcia estava dividida em três partes com relação à exigência de Moshé para que os hebreus fossem libertados: um grupo queria mantê-los escravos, estes morreram com as pragas; um grupo apoiava a demanda dos hebreus por liberdade, estes foram os que lhes deram prata e ouro; um terceiro grupo celebrou a libertação junto com os hebreus, são estes que compuseram o “erev rav”. [9]
Nossa sensação de isolamento e abandono também tem a ver como a forma como escolhemos enxergar os apoios que recebemos. Quantas vezes, ao lermos a história do Êxodo, não identificamos os apoios que recebemos, sem os quais, teria sido impossível termos sucesso na libertação? Da mesma forma, quantas vezes lemos nossa própria experiência como comunidade supervalorizando nossos adversários, mas sem dar a devida importância aos nossos parceiros? É verdade que estes apoios são muito mais explícitos em alguns momentos do que em outros, mas eles indicam que não estamos sozinhos. Juntos, os atos aos quais estive presente no domingo e na segunda-feira tiveram representantes de uma lista imensa de representações diplomáticas, de algumas dezenas de perspectivas religiosas e de quase todo o espectro político brasileiro. Se soubermos valorizar estes apoios e construir parcerias e alianças, podemos transformar estes apoios pontuais em relacionamentos permanentes, nos sentir bem acompanhados ao longo de todo o ano, incluindo quando nos sentimos atacados e ameaçados. Isso implica, é lógico, nos importarmos também com as dores e opressão dos outros — estarmos prontos a apoiá-los quando eles são atacados e entendermos que parcerias e alianças são relacionamentos que demandam mutualidade.
O livro das nossas histórias sagradas — histórias que não perdem a relevância, provocações que nos convidam a reavaliar nossas perspectivas, até nossos sentimentos, nossos medos e neuras!
No shabat que vem leremos sobre como, na saída do Egito, à beira do mar, perseguidos e com medo, encontramos a força e a coragem para, juntos, fazermos a travessia, nos libertarmos da opressão e encontrarmos a liberdade. Que no aqui e agora, nos sentindo também sozinhos e temerosos, que sejamos capazes de apreciar e celebrar os apoios que recebemos e que consigamos caminhar sem medo, sem nos sentirmos sozinhos ou abandonados.


[1] Dicionário Even Shoshan. Significados (1) e (2) para o verbete “תּוֹרָה”
[2] Gen. 1:1
[3] Rashi sobre Gen. 1:1
[4] Ex. 12:2
[5] Sarah Hurwitz, Here All Along: Finding Meaning, Spirituality and a Deeper Connection to Life — in Judaism, p. 11.
[7] Ex. 12:35-36
[8] Ex. 12:38