quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Um Exemplo de Vidui Positivo, inspirado nas lições de Rav Kook:

(Leia este artigo antes, para um pouco de contexto para o Vidui positivo)


Amamos, 

Brincamos, 

Cuidamos, 

Demos de nós mesmos, 

Esperamos com paciência, 

Fizemos o nosso dever, 

Ganhamos sem zombar, 

Honramos o  próximo, 

Influenciamos para o bem, 

Jogamos fora só o que não tinha mais uso, 

Limitamos nosso consumo,  

Melhoramos em tudo que conseguimos, 

Negociamos em boa fé, 

Observamos com cuidado antes de fazer, 

Protestamos conta injustiças,  

Quisemos o bem para o mundo, 

Reconhecemos os bons atos dos outros, 

Solicitamos ajuda quando precisamos, 

Tentamos com  afinco, 

Usamos nossos talentos só para o bem, 

Vislumbramos um futuro melhor, 

Xeretamos com respeito pela privacidade dos outros, 

Zangamo-nos sem perder o controle. 


Iom Kipur: uma oportunidade criativa para encontrarmos nosso passado e redefinirmos nosso futuro

Um novo olhar para Iom Kipur como oportunidade criativa

Os valores, narrativas e tradições de Rosh haShaná e de Iom Kipur estão profundamente relacionados ao conceito de t'shuvá, o processo de revisão das nossas condutas e de seus impactos que é sintetizado na palavra “retorno”. As Grandes Festas judaicas são uma oportunidade de reavaliação de onde estamos em relação à pessoa que gostaríamos de ser e de adoção de ações corretivas que retornem nossa rota de vida aonde gostaríamos que ela estivesse.

Talvez o momento da liturgia em que esse esforço se torna mais evidente é no Vidui, o momento da reza no qual confessamos nossas transgressões de forma pública e privada. As rubricas mais emblemáticas do Vidui são aquelas que elencam nossas transgressões em ordem alfabética, o “Ashamnu” e o “Al Chêt”, que parecem estar dizendo “de A a Z, nós erramos de todas as formas possíveis”. No contexto dessas rezas, t'shuvá quer dizer olhar para o passado com a coragem necessária para identificar nossos erros e assumir nossa responsabilidade por eles.

Recentemente, no entanto, entrei em contato com uma visão sobre t'shuvá que a coloca diretamente em diálogo com a criatividade. Interpretando uma lição do rabino do Gueto de Varsóvia, no qual ele dizia que a t'shuvá é também um processo de criação, o rabino Jan R. Uhrbach escreveu: 

T'shuvá é um tipo de criatividade. Como ato criativo, não é um simples retorno. T'shuvá é um retorno para frente, um retorno a algo que nunca existiu, um retorno a uma nova criação. Voltamos a quem sempre fomos e deveríamos ser, mas ainda não nos tornamos. Voltamos ao crescimento e à possibilidade que estavam adormecidos dentro de nós e ainda não floresceram, assim como uma escultura se esconde dentro de um bloco bruto de pedra. Esse é o sentido em que a t'shuvá é um ato criativo. É por isso que o processo de t'shuvá, por mais doloroso e até humilhante que seja, é de fato muito alegre e esperançoso. É um processo criativo no qual imitamos Deus e nos tornamos parceiros do Divino na obra da Criação. E o que estamos criando? Nós mesmos. [1]

Essa perspectiva, que busca identificar o que podemos nos tornar no futuro, complementa aquela que enxerga na t'shuvá um processo de análise de como fomos no passado. Assim, paradoxalmente, passado e futuro, se unem para voltarmos a ser quem ainda não fomos. Não olhamos apenas para o que deu errado no passado; nos permitimos sonhar e vislumbrar possibilidades que podemos atingir no futuro. O rabino Art Green, construindo sobre uma tradição rabínica que associa Iom Kipur com a data em que Moshé desceu do Monte Sinai carregando o segundo jogo de Tábuas do Pacto, interpreta Iom Kipur como a nossa oportunidade anual de definir os termos do nosso relacionamento com Deus: 

[Iom Kipur] é a época em que cada um de nós renegocia nossa aliança com Deus. Esculpimos nossas segundas tábuas, transformando a infinita demanda divina em uma com a qual estejamos preparados para viver. Este é o momento em que decidimos o que manteremos da tradição e o que deixaremos de lado por um tempo (sim, todos nós, mesmo os mais devotos, tomamos essas decisões), quais os principais presentes de caridade que daremos e quais adiaremos, que mitsvot faremos no reino humano e a quem estamos prontos para perdoar entre aqueles que nos fizeram mal. Não é só Deus quem toma as principais decisões nesta estação do ano. Deus pode decidir se viveremos, mas temos que decidir como viveremos a vida que nos é dada.

Os Iamim Noraim pareciam, inicialmente, pedir a admissão de nossa impotência. Ao enfrentarmos a mortalidade e a fragilidade humana, todas as nossas ilusões de poder e controle se afastam de nós. Mas aqui vemos um Iom Kipur que é sobre o poder humano, nosso poder de nos refazer renovando nossas vidas e nossa aliança com o Eterno. [2]

Na tradição, Iom Kipur é apontado como um dos dois dias mais felizes do ano [3]: o que poderia trazer mais felicidade do que a oportunidade de imaginar possibilidades futuras e caminhos para torná-las realidade?!

E na prática, o que podemos fazer?

Este processo de t'shuvá reconsiderada, abre a possibilidade de apontarmos também para os acertos do passado, da mesma forma que fazemos para os equívocos. Assim, as últimas décadas têm visto o florescer de listas lidas em Iom Kipur como parte do Vidui, que enumeram o que fizemos de melhor no ano que se encerrou, também em ordem alfabética, como se dissessem “de A a Z, nos esforçamos de todas as formas possíveis e muitas vezes acertamos no que empreendemos.” Essas listas, baseadas em um ensinamento do Rav Avraham Itschac Kook de que “assim como há um grande benefício na correção da alma na confissão das transgressões, também há um grande benefício que (…) [aconteça] o reconhecimento das boas ações que fizemos”, apresentam um ponto de partida para que cada um de nós possa preparar sua própria relação de acertos, mesmo que não chegue a todas as letras do alfabeto. Uma dessas sugestões encontra-se aqui.

Que seja um jejum tranquilo, que este seja um momento de transformação pessoal e de encontro com quem sempre soubemos que podemos ser.

[1] Dov Peretz Elkins, Rosh Hashanah Readings: Inspiration, Information and Contemplation, Jewish Lights Publishing: Vermont, 2006, pg. 5-6. [2] Art Green, “Prefácio: Nossos Dias de Espanto – Alguns Pensamentos sobre a Época”, in S. Y. Agnon, Days of Awe: A Treasury of Jewish Wisdom for Reflection, Repentance, and the Renewal on the High Holy Days, Schoken Books: New York, 1995. pgs. xiii-xviii [3] Mishná Taanit 4:8


sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

O nome Israel: nosso passado e nosso futuro


A primeira evidência arqueológica do povo judeu é uma estela (uma placa de pedra em que eram feitas inscrições na antiguidade) do século 13 aEC, em que aparece o nome “Israel” associado a um povo que teria sido destruído pelos egípcios. Mais de 3.200 anos depois, continuamos aqui, sinal de que quem escreveu esse texto muito antigo não tinha plena consciência da resiliência do povo judeu. Ao longo dos séculos, foi principalmente pelo nome Israel que o povo judeu foi conhecido, um fato marcado nos nomes das principais instituições judaica brasileiras (por exemplo, CIP, FISESP e CONIB). Um salto para o passado mais recente: nas vésperas da declaração da independência de Israel, um grupo de líderes da comunidade judaica na Terra de Israel se reuniu para discutir que nome dariam para o estado judeu. “Iehudá”, a proposta que tinha mais apoio inicialmente, foi descartada porque as fronteiras do estado bíblico com este nome caíam fora do que a partilha da ONU estabelecia para o estado judaico. Outras alternativas, como “Tsión” e “Tsábar” foram consideradas, mas ao final o nome “Israel” venceu a votação por 7 a 3. [1] A parashá desta semana, Vaishlách, nos conta a origem do nome “Israel”, que o patriarca Iaacóv recebe depois de duelar com um misterioso “homem” nas margens do rio Iabóc. Para entendermos o significado deste nome, é melhor darmos alguns passos para trás e revisitarmos a jornada que levou Iaacóv àquele lugar e àquela luta. Desde o seu nascimento e ao receber seu primeiro nome, Iaacóv foi um enganador [2]. Ele manipulou seu irmão para obter sua primogenitura [3] e recebeu a bênção de seu pai através de uma mentira. [4] Em vez de enfrentar as consequências de seus atos, Iaacóv fugiu de seus problemas com a ajuda de sua mãe. Como se isso não fosse o bastante para considerá-lo o menos nobre dos patriarcas, em sua primeira interação com Deus, depois de deixar sua casa, Iaacóv estabeleceu condições para seu compromisso com o Divino! [5] Uma vez em Aram, o destino de Iaacóv mudou lentamente, e, além de ser um enganador, também foi enganado várias vezes: especialmente, por seu sogro e tio, Laván, que lhe deu Leá como esposa em vez de Rachel; [6] Laván tentou enganá-lo novamente na divisão do gado, mas, com a ajuda de Deus e o uso de "genética prática", Iaacóv evitou ser ludibriado. Mas suas táticas lhe renderam o ódio dos filhos de Laván, e cansado do conflito, Iaacóv decidiu fugir novamente e retornar à terra de seus pais. [7] Neste ponto, Iaacóv estava começando seu processo de redefinição, mas ainda havia um longo caminho a percorrer; ele tinha tanto medo de seu encontro com seu irmão que não sabia o que fazer: por um lado, orou a Deus mostrando uma humildade que não estava presente quando ele rezou em Bethel, mas, por outro lado, tentou comprar o perdão de seu irmão, enviando-lhe presentes. Quando ele atravessou o rio Iabóc e chegou à terra de Cnaán, ele precisava de algum tempo sozinho para refletir sobre a pessoa que tinha se tornado. Ele deixou sua família de um lado do rio e voltou para o outro lado. É lá, nas margens do Iabóc, que ele viu Deus face a face. Ele viu a pessoa que se tornou, o enganador, o manipulador, alguém que não podia desenvolver relacionamentos com aqueles ao seu redor e que estava sempre fugindo em vez de enfrentar seus problemas. Ele sonhou com um “homem” que era simultaneamente um anjo, Deus e o próprio Iaacóv. Ele viu um Deus que "forma a luz e cria a escuridão, que faz a paz e cria o mal” [8]. Ele finalmente entendeu seu papel, a responsabilidade de ter a escolha entre o certo e o errado. Foi um processo doloroso, pois Iaacóv teve que reconhecer todos os erros que cometeu. Ao amanhecer, uma parte dele queria acordar desse sonho, se juntar à sua família e seguir em frente, mas Iaacóv resistiu à tentação e continuou lutando consigo mesmo nesse processo de autoanálise, até sentir que era digno de todas as bênçãos que tinha recebido. Em algum momento, o "homem" perguntou seu nome e, chorando, ele respondeu "Iaacóv, o enganador", e a resposta que recebeu foi "você não precisa mais ser um enganador; seu nome será ‘Israel’, porque você lutou com Deus e consigo mesmo e se tornou uma pessoa melhor". Intrigado, Iaacóv perguntou "e quem é você para mudar meu nome?", "você não precisa perguntar, você sabe quem eu sou" foi a resposta. Iaacóv reconheceu a natureza transformadora da experiência que teve nas margens do Iabóc e nomeou o lugar “Peniel” (“face de Deus”), porque ali, pela primeira vez, teve a coragem de se olhar no espelho, e ao fazer isso, viu o rosto de Deus. Quando o Sol nasceu, encerrou uma noite muito longa na vida de Iaacóv. Quando ele foi encontrar Essáv, ele estava pronto para assumir a responsabilidade pelo relacionamento que tinha com seu irmão (ou pela falta dele). Ele liderou seu acampamento e se curvou ao chão sete vezes, indicando seu arrependimento pela forma como tinha agido, e quando encontrou Essáv, ofereceu-lhe sua bênção. Não era a bênção de seu pai que ele havia recebido no lugar de seu irmão, mas era o que Iaacóv podia oferecer a Essáv. Mas Iaacóv ainda tinha com medo e se recusou a desenvolver um relacionamento profundo com seu irmão. Assim como qualquer pessoa que já tenha passado por um profundo processo de transformação pessoal ou coletiva, a mudança de Iaacóv, “o enganador”, para Israel, “aquele que lutou consigo mesmo e com Deus”, é um processo longo e não linear. Ao longo do caminho, o antigo Iaacóv ainda aparece às vezes, exigindo esforço de Israel para manter a mudança e continuar em seu novo caminho. Também pelo nome “Israel”, o povo judeu foi instruído a sermos aqueles que duelam com Deus e com os homens, que questionam, a cada passo, a si mesmos e as autoridades estabelecidas, que rejeitam os dogmas e as verdades inquestionáveis. É um legado maravilhoso e empoderador e, ao mesmo tempo, difícil e complicado. Não raras vezes, saímos machucados deste processo, mas aprendemos que não há sentido em deixarmos de ser quem somos. Neste comentário da parashá, me despeço deste espaço. Espero que, ao longo dos quase cinco anos em que participei dele, tenha contribuído um pouco ao processo judaico de reflexão e crítica através do texto da Torá. 


[1] https://bit.ly/3R1WNiT [2] Gen. 25:26 [3] Gen. 25:29-34 [4] Gen. 27:1-40 [5] Gen. 28:20-22 [6] Gen. 29:16-26 [7] Gen. 30:25-31:3 [8] Isaías, 45:7


sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Por mais perguntas e menos certezas

(uma versão em inglês deste texto foi publicado neste blog com o título “More Questions and Fewer Certainties)


Entre a obediência imediata às ordens Divinas e a sua contestação vigorosa, Avraham apresenta modelos bastante distintos de liderança religiosa no texto da parashá desta semana, Vaierá. Quando Deus lhe revela que destruirá a cidade de Sodoma e Gomorra porque seus crimes são muito graves, Avraham questiona a conduta ética de Deus nos termos mais fortes que se pode conceber: “O Juiz de toda a terra não agirá com justiça?!” [1]. Por outro lado, quando, alguns capítulos mais tarde, Deus exige de Avraham que sacrifique “seu filho, seu único filho, aquele que você ama, Itschác” [2], nosso patriarca consente sem questionar, toma seu filho e caminha com ele até o local em que Deus havia indicado que o sacrifício deveria acontecer. Não fosse por uma intervenção Divina no último minuto, quando a faca do sacrifício já havia sido levantada, Avraham teria, de fato, seguido a instrução de Deus e dado fim à vida de seu próprio filho.

Ao longo dos séculos, as duas histórias têm sido apontadas como modelos de virtude e de comportamento religioso. Não foram poucos os comentaristas que destacaram, apontando para o episódio do quase-sacrifício de Itschac, que não apenas Avraham estava disposto a seguir a instrução Divina, mas que Itschac também estava disposto a ser sacrificado, se este era o plano de Deus. Uma devoção acima de suas vontades e necessidades pessoais era, de acordo com esta perspectiva e com as lições tiradas desta passagem bíblica, o ideal religioso a ser buscado. Se Avraham havia sido testado neste episódio, então ele foi aprovado com louvor. 

No entanto, pelo menos desde os tempos talmúdicos e apesar de tentativas das lideranças rabínicas de boicotarem este tipo de abordagem, a contestação à forma como Avraham aceita a ordem Divina de sacrificar seu próprio filho também tem feito parte de como os comentaristas abordam o quase-sacrifício de Itschac. [3] Para eles, a forma como Avraham questionou a revelação da destruição de Sodoma e Gomorra reflete uma postura mais saudável no relacionamento com a autoridade, até mesmo com a autoridade Divina. Em particular, a Avraham, considerado um iconoclasta, alguém que não deixava ídolos sem serem revirados, que não tinha medo de se colocar contra o consenso geral, essa seria uma postura mais alinhada com sua história de vida.

Eu penso nessas histórias e como elas podem se relacionar com outros modelos teológicos, não necessariamente com a Voz Divina externa que Avraham escutou e o instruiu a sair do lugar em que vivia e construir um novo lar em uma terra  que Deus lhe apontaria, mas também com a voz interna, aquela que vem da fagulha Divina em cada um. Quando damos ouvido ao que a nossa voz interna diz, quase sem fazer perguntas, e quando a questionamos de forma intensa? Quando nossas certezas são tão fortes que aceitamos suas premissas a valor de face, sem nenhum questionamento, como dogmas cuja validade é inquestionável e cujo próprio ato de aceitação se torna uma forma de devoção quase-religiosa? Quando, por outro lado, fazemos as perguntas incômodas, sem certeza de aonde elas nos levarão, com alguma trepidação de estarmos, de fato, traindo nossa voz interior e sabe-se lá mais o que no processo?

Na época das mídias sociais em que vivemos, nos definimos também pelas causas que abraçamos e pelas quais nos manifestamos de forma quase-obsessiva, algumas vezes. Repetindo o comportamento de torcidas de futebol, re-postamos os argumentos do nosso time sem questionar sua validade, passamos os olhos pelas postagens do outro time sem considerar a razão que possa existir nelas. E, como nos confrontos entre torcidas, que se tornam violentos com frequência inaceitável, nos tornamos simultaneamente abusivos e vítimas de abuso, radicalizando ainda mais as posições e as rivalidades.

Me inspira pensar na coragem que Avraham teve no seu desafio a Deus no episódio de Sodoma e Gomorra e nas lições que podemos tirar de seu exemplo. A relação dialógica com o Divino que se estabelece ali é das passagens da Torá que mais me tocam. Que possamos todos aprender com ele a ter a coragem de perguntar mais e ter menos certezas, para romper com ciclos de abuso e violência em que nossos posicionamentos algumas vezes se tornam, buscar estabelecer o diálogo, o reconhecimento da humanidade mútua, o acolhimento das dores, dos traumas, dos prazeres e das certezas que cada um de nós carrega, para estabelecermos debates mais respeitosos, compreensivos e produtivos.

Shabat Shalom! 

 

[1] Gen. 18:25 

[2] Gen. 22:1-2

[3] Veja, por exemplo, o 5º capítulo de J. Richard Middleton, “Abraham’s Silence: The Binding of Isaac, the Suffering of Job and How to Talk Back to God”.


sábado, 14 de outubro de 2023

Dvar Torá: Mantendo nossa humanidade e a deles mesmo em situação de Guerra (CIP)

[nota: Essa é a prédica mais difícil que eu já escrevi e eu peço a vocês um pouco de generosidade na reação. Todos vivemos uma semana terrível e estamos tentando fazer sentido em uma realidade absolutamente caótica. Muita gente vai discordar do que eu tenho a dizer — com sorte, alguns concordem também e possamos refletir, crescer e amadurecer juntos. Se você quiser fazer parte dessa conversa, use os comentários do blog. Comentários ofensivos, antissemitas, islamofóbicos, etc. serão removidos.]


Eu lembro exatamente onde eu estava. Tinha ido abrir uma conta no Itaú mas tinha faltado algum documento e não tinha podido abri-la. Dirigia do Brooklin, onde trabalhava e ficava a agência, até o meu apartamento em Perdizes. Liguei o rádio e falavam de um acidente terrível, no qual um avião tinha se chocado com uma das Torres Gêmeas em Nova York. Todos estavam assustados mas tratavam o assunto como uma acidente. Ainda enquanto eu dirigia, um segundo avião se chocou com a outra torre. Aí tinha ficado claro que não era acidente nenhum. Os Estados Unidos estavam sob ataque e o mundo nunca mais seria o mesmo depois daquele dia. Estar no olho do furacão da história, muitas vezes te deixa absolutamente atordoado. Cheguei em casa, liguei a TV e entrei em desespero ao assistir ao vivo e a cores a transformação do nosso mundo. Tem momentos da vida que nunca vamos esquecer…

Este último sábado teve um sentimento muito parecido. Acordei para fazer o serviço de Sh'mini Atséret, como tenho feito nos último anos. Minha prima Silvinha faleceu em Sh'mini Atséret em 2019 e, desde então, fazer este serviço é minha forma de homenageá-la. Ao acordar e olhar o celular, já tinha uma série de mensagens falando de ataques sincronizados do Hamás contra Israel por terra, ar e mar. Apesar de ser shabat, sintonizei em uma rádio israelense para escutar o que estava acontecendo e, mesmo cedo de manhã, já se falava em comunidades inteiras mantidas reféns. Pessoas estavam ligando para programas de TV e de rádio ao vivo de dentro dos quartos seguros de suas casas e contando que terroristas estavam do outro lado de suas portas reforçadas. O quadro era caótico, sabíamos que havia a chance de um imenso desastre humano, mas sua dimensão real ainda não era conhecida.

Conforme as horas foram passando, fomos escutando relatos horrendos cujos detalhes não vou repetir. Todos nós passamos a semana lendo e escutando sobre os terríveis atos perpetrados pelos terroristas, cenas inimagináveis, de uma violência e sadismo indescritíveis. Muitos de nós temos familiares e amigos ou familiares de amigos assassinados pelo terror nestas primeiras horas, mas imagino que todos nos sentimos como se as mais de 1.200 vítimas fizessem parte da nossa família expandida e nos esforçamos para aprender mais sobre as suas histórias… 

  • Debora Matias era filha de Ilan Troen, um acadêmico dos estudos sobre Israel na Universidade de Brandeis que eu conheci quando morava nos Estados Unidos. Debora e seu marido, Shlomi, se jogaram sobre o corpo de seu filho, Roten, de 16 anos, e foram ambos mortos. Pelo esforço de seus pais, Roten, apesar de ferido, sobreviveu. [1]
  • Vivian Silver era uma militante pelos Direitos Humanos. Ela serviu por muitos anos no Conselho de B’Tselem, a principal organização em defesa dos Direitos Humanos de Israel. Ela fazia parte de vários movimentos trabalhando pela paz entre israelenses e palestinos e foi nomeada pelo jornal HaAretz em 2011 como uma das 10 imigrantes de países de fala inglesa mais influentes em Israel. Ela foi sequestrada do kibutz Beeri, onde ela vivia, e seu paradeiro ainda é desconhecido. As última palavras que ela trocou com seu filho, por mensagens de texto enviadas do quarto seguro em que ela se escondia, foram “Eu te amo”. “Ela estava muito comprometida em fazer do mundo um lugar melhor e ela falhou”, ele disse ao The New York Times. [2]
  • Eyal Waldman é um bilionário israelense ligado à indústria de tecnologia, que vendeu sua empresa por US$7 bilhões em 2020 e que defendia a contratação de programadores palestinos da Cisjordânia e de Gaza. [3] Sua filha, Danielle e seu namorado, Noam, tinham acabado de contar a Eyal que eles iam se casar, depois de terem mobiliado e se mudado para um novo apartamento. Danielle e Noam estavam no festival de música eletrônica Supernova e foram ambos emboscados e assassinados. [4]

Para qualquer pessoa minimamente sensível, estas histórias deveriam causar choque e consternação. Estas não eram pessoas que oprimiam palestinos — pelo contrário, cada um ao seu modo, eles estavam todos envolvidos na construção de pontes, na melhoria das condições de vida da população palestina. Pessoas assassinadas ou sequestradas de forma brutal e covarde, sem chance alguma de defesa, simplesmente por viverem onde viviam e por estar onde estavam.

Para quem acompanhou os eventos desta última semana daqui do Brasil, foram dois choques. O primeiro foi o choque do ataque em si, pela sua estupidez, pelo assassinato de bebês, de crianças, de pessoas idosas; pelo estupro e outras violências cometidas contra populações civis; pela forma irreverente como os terroristas trataram esses atos, divulgando-os nas redes sociais e se gabando deles para quem quisesse prestar atenção.

O segundo choque foi causado pela forma como esses atos foram recebidos mundo afora. Não foram raras as lideranças na política e nos movimentos sociais no Brasil e em outras partes do mundo que celebraram os atos terroristas como iniciativas genuínas de libertação nacional. Pessoas que até a semana passada admirávamos, de quem éramos amigos; pessoas com quem marchamos juntos pelos direitos humanos, contra o racismo, pela democracia, contra o feminicídio, contra a LGBTQIAP+ fobia. Pessoas que, apesar de se manifestarem por todas essas pautas ao nosso lado no Brasil, decidiram apoiar o Hamás, um grupo fundamentalista, que envia homens homossexuais à cadeia por 10 anos [5],  que limita o acesso de mulheres que buscam a Justiça contra casos de violência doméstica, que apela à tortura como estratégia de investigação e onde opositores do regime desaparecem. [6] Contra Israel e contra judeus, as piores formas de violência passaram a ser consideradas estratégias legítimas de resistência. 

Para ser justo, também tivemos muitas lideranças que adotaram um tom bastante crítico com relação aos atos terroristas, tanto no mundo da política quanto no dos movimentos sociais.

Nesse cenário de terra arrasada, de nos sentirmos fragilizados pela violência e abandonados pelos nossos companheiros de luta, o maior risco é cedermos ao desespero e abrirmos mão daquilo que temos de mais valioso: nossa humanidade, nossos valores e nossa conduta moral. Quando sofremos o tipo de ataque que Israel sofreu no último final de semana, com esse nível de brutalidade e de terror, nada mais natural do que querermos causar a mesma dor ao outro lado, garantir que eles saibam que nossa dor não será em vão, que haverá um preço muito alto a ser pago. Em alguns grupos judaicos aos quais eu pertenço, o desejo de vingança, qualquer que seja o preço, é paupável. De alguma forma, essa foi a resposta norte-americana aos atentados de 11 de setembro — e vejam onde estamos hoje: o Taleban de volta ao poder, o sentimento global antiamericano em recordes históricos, o estilo de vida americano mais ameaçado do que jamais esteve. Como um analista israelense disse na rádio naquela manhã de sábado: “a vingança não é um plano de ação.”

Hoje de manhã, ao recitarmos a benção Iotser Or, que faz parte da liturgia diária da manhã, eu mencionei que ela é baseada em um versículo no livro de Isaías, capítulo 45, no qual Deus se apresenta a Ciro, imperador da Persia, que tinha conquistado o Império Babilônico. “Eu sou ה׳ e não há nada mais. Não há outros deuses além de Mim. Eu te empodero, ainda que você não Me conheça. Para que todos saibam, do leste ao oeste, que não há nada além de Mim, eu sou ה׳ e não há outros. [Eu] produzo a luz e crio a escuridão, faço a paz e crio o mal.” É esta última frase que foi parafraseada na brachá que dizemos todas as manhãs. Como dizia uma professora querida, a rabina Rachel Adler, é um ato corajoso reconhecer Deus como a fonte do mal, mas agradecer por isso toda manhã é pedir demais e os Rabinos trocaram a palavra “mal” por “tudo” e a benção ficou: “produzo a luz e crio a escuridão, faço a paz e crio tudo.” Nossa parashá desta semana, Bereshit, nos ensina que somos, TODO ser humano, criados à imagem Divina, com o potencial para decidir nosso caminho. Dessa forma, precisamos, cada um de nós, escolher a cada manhã entre a luz e a escuridão, entre o bem e o mal. 

O Hamás fez suas escolhas e decidiu negar a humanidade de israelenses e de judeus para poder cometer as atrocidades que cometeu. Responder à violência inconcebível do Hamás abrindo mão da nossa humanidade e da deles seria permitir que eles tivessem o maior triunfo nessa disputa.

Da mesma forma, temos visto a humanidade de judeus e de israelenses colocadas em cheque por quem apoia, daqui do Brasil, as ações de terror cometidas em nome da libertação nacional palestina, ainda que não avance nem um milímetro essa causa. Um jornalista, recorrendo à imagem nazista do judeu como rato, citou um ditado chinês para justificar os atos terroristas, dizendo “não importa a cor dos gatos, desde que cacem ratos.” [7] Novamente, nossa humanidade foi descartada para legitimar a violência de que fomos vítimas. 

Frente ao abandono que temos sentido por parte de nossos antigos aliados nas causas humanistas no Brasil, podemos nos sentir tentados a nos retirar desses movimentos, mas é importante lembrar que não nos manifestamos contra o racismo, só para dar um exemplo, esperando apoio a causas judaicas quando precisássemos, mas porque consideramos verdadeiramente que o racismo é um pecado que precisa ser extirpado da cultura brasileira, assim como o machismo, os preconceito por identidade de gênero e sexual e outras formas de violência. 

Hoje eu conversei com o Marcelo Semiatzh, sócio da CIP cuja tia e primos viviam no kibutz Kissufim, ao lado da faixa de Gaza, e que foram assassinados neste final de semana. Eram pessoas carinhosas e bem humoradas. Sua tia Gina, aos 90 anos, pedia para ele levar cachaça quando fosse para Israel para ela poder fazer caipirinha. O primo Itzchák desenvolvia projetos conjuntos com os palestinos de Gaza até a ascensão do Hamás. Marcelo me falou de como é difícil alguém defender os direitos humanos quando a tia que ele tinha como mãe foi assassinada com a brutalidade que foi. “A raiva estava tomando conta de mim”, ele me disse. “Mas eu sou o que eu sou e não vou ficar vivendo em função do ódio do outro.” 

Nos mantermos quem somos e não permitir que sejamos definidos pelo  ódio ou pelo Hamás é o maior desafio que temos nesse momento. Que possamos todos escolher a luz e não a escuridão; a paz e não o mal. Que possamos nos defender, como é nossa obrigação, sem nos tornarmos a cópia daquilo que combatemos.