sexta-feira, 26 de março de 2021
sexta-feira, 19 de março de 2021
Dvar Torá: Mudanças que vão além da superfície (CIP)
terça-feira, 16 de março de 2021
Podcast 5.8 - Episódio 14: Com o olhar para o futuro: o impacto de Israel sobre a identidade judaica na Diáspora
(originalmente publicado em http://5ponto8.fireside.fm/14)
Apesar de nos orgulharmos dos 3500 anos da história judaica, é inegável que alguns eventos dos últimos cem anos têm um peso desproporcional na forma como vivemos judaicamente hoje em dia. A criação do Estado de Israel é um destes eventos com impacto sobre a identidade judaica de virtualmente todos os judeus. Há judeus que concordam mais com as políticas do Estado, outros que concordam menos; há aqueles que o enxergam como o centro de sua vida judaica, outros que nele encontram sua antítese. Antes um fator de união da comunidade judaica, Israel manteve este papel ao longo das suas sete décadas, mas passou a ser também um motivo de discórdia. Por isso, queremos escutar vozes diversas sobre a forma como o Estado de Israel impacta a identidade judaica, nossa resiliência, nosso orgulho, nossa segurança. Hoje, damos o primeiro passo dessa investigação.
Nosso convidado deste episódio é o Samuel Feldberg, doutor em Ciência Política pela USP e um especialista em questões relacionadas a Israel.
Dicas Culturais:
- Micah Goodman, O Impasse de 1967: A Esquerda e a Direita em Israel e o Legado da Guerra dos Seis Dias, https://www.amazon.com.br/Impasse-1967-Esquerda-Direita-Coleção-ebook/dp/B08B469B65/
- Anita Shapira, Israel: Uma história - https://www.amazon.com.br/Israel-Uma-história-Anita-Shapira/dp/8577533808/
- Itamar Rabinovich, Yitzhak Rabin: Uma biografia - https://www.amazon.com.br/Yitzhak-Rabin-biografia-Itamar-Rabinovich/dp/857715663X
- Tal Keinan, God Is in the Crowd: Twenty-First-Century Judaism - https://www.amazon.com.br/God-Crowd-Twenty-First-Century-Judaism-English-ebook/dp/B078QTCSMZ/
Com Rogério Cukierman e Laura Trachtenberg Hauser.
Créditos da Música de Abertura: Lechá Dodi, da liturgia tradicional de Shabat | Melodia: Craig Taubman | Clarinete: Alexandre F. Travassos | Piano: Tânia F. Travassos.
Edição: Misa Obara
quinta-feira, 11 de março de 2021
A hora de cuidar da comunidade
Na última semana foram inúmeras as mensagens nos grupos de pais da escola do meu filho: manifestos pedindo o fechamento da escola tendo em vista a piora do quadro de saúde pública, manifestos pedindo que a escola continue aberta tendo em vista os impactos positivos para os alunos, matérias de jornais, vídeos de pediatras e de outros especialistas, debates acalorados. Não aconteceu em nenhum dos grupos dos quais faço parte, mas escutei relatos de que os debates algumas vezes descambaram para ofensas pessoais. Ao mesmo tempo, no entanto, vi gente manifestando arrependimento de ter se colocado tão incisivamente a favor desta ou daquela posição, temendo que a guerra de manifestos destruísse a comunidade escolar.
Com o passar da semana, fui me dando conta de que a grande maioria das pessoas, independentemente da sua posição com relação ao fechamento da escola, estava tentando proteger a comunidade. Alguns pensavam na comunidade de crianças pequenas, tão carentes do contato com seus colegas e que, por estarem vivendo em isolamento de outras crianças da mesma idade, ainda não tinham desenvolvido competências sócio-emocionais importantes. Outros pensavam na comunidade de alunos, familiares, funcionários e professores que usam o transporte público, que se arriscariam ao contágio em ambientes saturados se tivessem que vir à escola. Havia quem pensasse na comunidade da cidade como um todo, querendo proteger aqueles que precisam trabalhar mesmo sob as mais rígidas condições de quarentena: médicos, enfermeiros, farmacêuticos, funcionários da limpeza pública e dos transportes coletivos. A forma como definíamos nossa comunidade, ou pelo menos a comunidade pela qual nos sentimos responsáveis, tinha um impacto imenso em qual política considerávamos correta.
A parashá desta semana, Vaiakhêl-Pecudei, começa com Moshé reunindo toda a comunidade e lhes instruindo sobre a hora de parar para o Shabat e lhes pedindo para doar, cada um de acordo com a generosidade do seu coração, para o projeto comum, a construção do Mishcán. Assim como na época de Moshé, temos um projeto conjunto de comunidade, no qual investimos o que temos de mais sagrado: nossa saúde, nosso bem-estar em todos os seus aspectos.
Em 2020, lemos Vaiakhêl-Pecudei no mesmo final de semana em que tivemos o primeiro Cabalat Shabat a portas fechadas na CIP. Ainda inexperientes com a tecnologia e em conduzir um serviço religioso com a sinagoga vazia, começamos a experimentar novos passos. Quem assistir a transmissão do serviço de hoje e compará-la com o que fizemos há um ano, rirá da falta de técnica, óbvia naquelas primeiras transmissões. Aprendemos muito neste ano, passamos a valorizar coisas que considerávamos óbvias, revisitamos conceitos e valores, mas algumas coisas continuaram as mesmas como eram doze meses atrás.
Vários comentaristas notaram que na parashá desta semana alguns aspectos do projeto de construção do Mishcán são repetidos várias vezes. Uma das opiniões é que a repetição serve para indicar que líderes precisam tratar o bem comum com muito cuidado e prestar contas das suas ações à frente da comunidade. Neste momento, com a piora dos índices de saúde pública, é função de cada um de nós exercer sua liderança e garantir que o projeto comum da nossas comunidade, garantir a saúde de todos, seja desempenhado com responsabilidade, cuidado e transparência. Cabe a cada um de nós se cuidar e, assim, ajudar a cuidar da comunidade que todos tanto valorizamos.
Shabat Shalom
terça-feira, 2 de março de 2021
Podcast 5.8 - Episódio 13: Com o olhar para o futuro: o judaísmo ibérico e holandês no Nordeste do Brasil
(Oiginalmente publicado em http://5ponto8.fireside.fm/13)
"Quem segue a pé de Chinatown em direção ao Distrito Financeiro de Nova York talvez passe inadvertido, à altura do número 55 da St. James Place, diante dos 22 metros de comprimento de uma mureta feita de pedras superpostas, encimada por grades pontiagudas e enferrujadas. Por trás dela, nada de excepcional parece chamar a atenção no pequeno descampado estabelecido metro e meio acima do plano da calçada, o solo coberto de musgo e ervas daninhas. À primeira vista, aparenta ser apenas um terreno baldio, simples vazio urbano dando para os fundos deteriorados de prédios populares de três e cinco andares.
Assim de passagem, só mesmo uma dose singular de atenção e curiosidade irá discernir a placa retangular ao rés do chão interno, as letras em alto-relevo recobertas de pátina própria ao tempo: Primeiro Cemitério da Sinagoga Espanhola e Portuguesa Shearith Israel da Cidade de Nova York 1656-1833”
Nossos convidado de hoje é Lira Neto, escritor e jornalista, recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura em quatro ocasiões (2007, 2010, 2013 e 2014) e uma vez o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte - APCA (2014). Graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará (UFC), é mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Doutorando em História pela Universidade Nova de Lisboa. Lira Neto está publicando nestes dias o livro “Arrancados da Terra” pela Companhia das Letras, no qual ele trata dos processos que levaram a comunidade judaica portuguesa a se refugiar na Holanda e, de lá, fazer parte da invasão holandesa no nordeste brasileiro.
Dicas Culturais:
Thimothy Brook - O chapéu de Vermeer - https://www3.livrariacultura.com.br/o-chapeu-de-vermeer-30171043/p
Evaldo Cabral de Melo - Brasil Holandês - https://www3.livrariacultura.com.br/o-brasil-holandes-2012994272/p
Richard Zimler - “O último cabalista de Lisboa”, https://www.estantevirtual.com.br/livros/richard-zimler/o-ultimo-cabalista-de-lisboa/1577869466
Com Rogério Cukierman e Laura Trachtenberg Hauser.
Créditos da Música de Abertura: Lechá Dodi, da liturgia tradicional de Shabat | Melodia: Craig Taubman | Clarinete: Alexandre F. Travassos | Piano: Tânia F. Travassos.
Edição: Misa Obara
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021
Dvar Torá: Reservatórios escondidos da Ner Tamid interior (CIP)
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021
O direito de esquecer e de ser esquecido e a responsabilidade de lembrar
(uma versão em inglês deste texto foi publicado neste blog com o título “The right to forget and be forgotten, and the responsibility to remember”)
Nossa memória tem a capacidade interessante de suavizar os sobressaltos pelos quais passamos ao longo de nossas vidas. Como se fosse uma lixa potente tratando de alisar a textura de um móvel áspero, vamos, ao longo dos anos, lembrando de versões mais amenas de conflitos, aumentando os papéis que tiveram as pessoas que amamos, diminuindo nossas próprias falhas. É uma ferramenta importante para que consigamos continuar vivendo depois de termos passado por episódios especialmente difíceis — na sua falta, continuaríamos recordando traumas, remoendo mágoas, vivendo no arrependimento. Tal qual uma obra literária ou um filme “baseados em fatos reais”, nossa memória mantém um pé naquilo que realmente aconteceu, mas com o outro busca aliviar o ônus de vivermos permanentemente com essas lembranças.
De um tempo para cá, no entanto, essa característica da nossa memória tem sido dificultada pela quantidade de registros que vamos deixando das nossas experiências e interações. De que adianta a memória suavizar um conflito se basta uma visita às mensagens do aplicativo para nos lembrarmos exatamente da dor que tínhamos sentido? Quando cometemos um deslize, os registros nas redes sociais não permitem que nossa memória o registre em tons mais suaves do que tinha originalmente. Tudo que escrevemos, fotografamos e filmamos está indexado pelas ferramentas de busca e a um clique de distância de quem procura saber quem somos, ainda que já não sejamos a mesma pessoa que produziu ou aparece nessas peças. Não só para presidentes que o pedido “esqueçam o que escrevi” já não é mais possível — tudo o que escrevemos, seja um artigo ou um status, se torna permanente.
Quem consegue viver com a responsabilidade perpétua por cada ato desatento? Quem consegue sustentar relacionamentos cujas falhas sempre voltam a nos revisitar como fantasmas?
O shabat desta semana é chamado “Shabat Zachor”, “o shabat em que você é orientado a se lembrar”. Uma das passagens da Torá que leremos neste sábado começa com a instrução “Lembre-se do que Amalek fez com você em sua jornada, depois que você deixou o Egito — como, sem se deixar abater pelo temor de Deus, ele o surpreendeu na marcha, quando você estava faminto e cansado, e matou todos os retardatários em sua retaguarda” e termina ordenando “Portanto, quando Adonai teu Deus te der a segurança de todos os teus inimigos ao teu redor, na terra que o Adonai teu Deus te dá por herança, apague a memória de Amalek de debaixo do céu. Não se esqueça!” [1] A tensão entre a lembrança e o esquecimento fica evidente nessas linhas. Aqui, trata-se da memória de um ato que se cristalizou na tradição judaica como a expressão paradigmática da covardia e do mal. Nessas situações, nas quais o trauma de quem as viveu é evidente, onde fica a nossa conduta: será que nos esforçamos para lembrar e garantir que ações similares nunca mais aconteçam ou garantimos que as esqueçamos, poupando as vítimas de reviver aqueles momentos terríveis?
Como em tantos outros assuntos, não há respostas absolutas que contemplem todas as situações. Em um mundo que registra cada vez mais detalhes do que falamos, do que fazemos, para onde vamos, a sedução de momentos em que possamos de fato esquecer e sermos esquecidos, é tentadora. De outro lado, há a obrigação ética de lembrar para que aprendamos das nossas experiências, garantindo que — individual e socialmente — não caiamos sempre nas mesmas armadilhas.
Que do encontro do nosso direito ao esquecimento com nossa responsabilidade por lembrar consigamos construir situações em que possamos crescer sem carregar permanentemente o peso do mundo e das nossas memórias nas nossas costas.
Shabat Shalom,
[1] Deut. 25:17-19